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                <title>1971. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY0008</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="AG">Ana Guilherme</name></resp>
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                <respStmt><resp n="revision"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2011">2011</date>
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                    <p>Copyright 2011, CLUL</p>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="AP">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY0008, Fólio [1]r-v</idno>
                    </letIdentifier>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2011" id="CDD2011">CDD2011</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1971.02.16
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                        </dateLet>
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                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
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                                <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche.</p>
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                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
                            <p></p>
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                        <class n="type">conselho</class>
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                        <class n="socioHistoricalSource">prisão</class>
                        <class n="sociologySource">família, saúde, migração, condições económicas</class>
                        <p>O autor, analisa, um a um, os membros da sua família. Com quem se demora mais é com a irmã da destinatária, sua cunhada, cuja doença psíquica lhe justifica uma série de reflexões e de conselhos. Preocupa-se muito com as filhas e com a possibilidade de não estarem a ter uma infância normal. Termina com uma série de encomendas, umas para si prório, porque lhe fazem falta na cadeia, outras para serem mandadas em seu nome enquanto presente.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
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                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
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                        </adminInfo>
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                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY0008_1.JPG"/></bibl>
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                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
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                <language n="PT"/>
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>janeiro de 2011</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Ana Guilherme</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
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            <change>
                <date>dezembro de 2011</date>
                <respStmt><resp><name>Mariana Gomes</name></resp></respStmt>
                <item>Revisão da leitura</item>
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        </revisionDesc>
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                <address>
                    <addrLine>Peniche,</addrLine>
                </address>
                <date>16. Fevereiro. 1971</date>
                <salute>Meu Amor:</salute>
            </opener>
            <p>Tantas coisas ainda a dizer-te e tão pouco espaço e tão poucas condições. Mas não desisto de romper esta dificuldade de convívio, mesmo se continuo à<lb/> espera da... tua resposta à minha carta de 3 de Fevereiro do corrente ano. Toma nota para não te esqueceres.<lb/> Já escrevi hoje a meu Pai e à <name/>. Não é fácil isto de relevar a ternura e a amizade que se tem pelas pessoas, para além de tudo sem cair no servilismo, víncan-<lb n="false"/>do a personalidade que nos é própria, defendendo o que se reputa justo. Com meu Pai há sempre o perigo dum choque vivo de concepções de vida ou de sentimentos se pessoa-<lb n="false"/>lizar, esconder e desfigurar os laços afectivos que nos unem; somos em muitas coisas tão parecidos que nos tendemos a impor - embora naturalmente (é meu pai, é mais<lb/> velho, etc) isso surja mais da sua parte. É uma longa e longa história de incidentes que nos vão desgostando e logo vamos esquecendo porque ambos esquecemos com fa-<lb n="false"/>cilidade e com facilidade conseguimos desprendermo-nos de pequenas feridas, no esforço muito isento de compreender os outros, porque essas qualidades temos nós.<lb/> Falo a meu Pai na vossa visita, com pormenores das miudas, na <hi rend="underlined">tua promessa de escrever regularmente</hi> desde que tenhas resposta, etc. Sei que meu Pai es-<lb n="false"/>tá muito ligado às miudas, especialmente à <name/>, e acho que temos a estricta obrigação de perceber a sua saudade dela e de o acarinhar. 76 anos são 76 anos!<lb/><lb/> A <name/> é outra coisa. Escreveu-me uma carta muito dolorida: está nitidamente e muito abalada com o aborto, derrotada pela perda do filho que sonha, com<lb/> a sensibilidade em carne viva. Daí acusar-me (ou nos), embora veladamente, de nada lhe termos escrito para que sentisse que também "vivemos um pouco as suas<lb/> dores e as suas chatices". Sofre e é mimalha! É compreensível, merece realmente o nosso carinho e a nossa ajuda no periodo dificil que atravessa.<lb/><lb/> A propósito falo-te da tua irmã. Fiquei a pensar. É tua irmã, sinto-a um pouco minha irmã também. É preciso encontrar a forma acertada de a<lb/> ajudar. Não a ajuda nada, neste momento, a ideia que não está doente e é mesmo preocupante. Há dois preconceitos generalizados sobre doenças de foro psiquico:<lb/> um tendente a fazer delas uma "coisa" <del hand="CDD2010">de</del> exterior à consciência do doente, enfronhando o sujeito no seu umbigo (a infância, o pai, a mãe, o sexo, isto e aquilo); outro,<lb/> a de que essas coisas são "fita", "teatro", unicamente dependentes da vontade do sujeito. O primeiro conduz a tratamentos exaustivos, que desviam dos autênticos problemas,<lb/> jogando cada vez menos a consciencia e a vontade do doente; o outro conduz ao desprezo de reais situações de doença e reflecte um preconceito anti-cientifico e até<lb/> mistico da independencia in<del hand="CDD2010">d</del>condicionada dos fenómenos psíquicos. Em todos os casos importa mostrar o papel decisivo da consciencia e da vontade do próprio. Mas<lb/> isso não quer dizer que não haja situações em que as reacções e o comportamento não dependem já inteiramente do próprio, em que o equilibrio psiquico atingiu<lb/> pontos de rotura, perdendo-se o dominio de multiplos aspectos da personalidade e do sistema nervoso e reativo, associado geralmente a elevados niveis de es-<lb n="false"/>gotamento fisico. Em tais situações, o médico tem uma função fundamental e decisiva. Por um lado, diagnosticando o tipo e a origem da doença e o <gap reason="cancelled" extent="1 word"/><lb/> estádio atingido por ela; depois orientando o doente para uma conscienci<del hand="CDD2010">l</del>alização dos próprios problemas (e neste sentido tem sempre um certo papel de confidente);<lb/> e sobretudo determinando o tratamento (medicamentoso, sono, etc) que permita ao doente restaurar um mínimo do seu equilibrio, recuperar energias, capa-<lb n="false"/>cidades reactivas, etc - base imprescindível para que possa por si enfrentar os próprios problemas, sair do círculo vicioso em que tombou. Digamos, torna possí-<lb n="false"/>vel que a vontade e a consciência do doente assumam o papel decisivo que sempre tem de assumir. Um exemplo ilustrativo: um sujeito sofre um choque<lb/> emocional, deixa de dormir, enerva-se, etc. É natural; é justo dizer-lhe que terá de reagir por si próprio, adaptar-se à situação gerada pelo choque<lb/> sofrido, vencê-la, etc; mas, nalguns casos, a insónia debilita-o a tal ponto que dificulta ou impede a reacção, a adaptação, etc. O problema tende a<pb n="[1]v"/> avolumar-se e a mudar de natureza. É cegueira, em tal caso, desprezar a ciência médica que permite combater eficaz e facilmente a insónia, precisamente para<lb/> recobrar energias, reencontrar o equilíbrio, etc, em suma, recuperar o comportamento normal. O exemplo é muito simplista, mas mostra o que quero dizer. A<lb/>  vossa irmã tem necessidade de tomar um conjunto de decisões difíceis, que impõem uma consciência lúcida de si propria e das coisas. Não o poderá fazer - seja qual<lb/> for o sentido em que o venha a fazer - sem recuperar um minimo de equilibrio nervoso e fisico, enquanto não romper um circulo vicioso de problemas -<lb/> - ansiedade - angustia - indecisão - esgotamento fisico - problemas - angustia - indecisão - etc, circulo que não se fecha mas se vai tornando crescente,<lb/> como uma bola de neve. Os elos a quebrar é, por um lado, vencer o esgotamento nervoso e físico e, por outro, consciencializar os problemas em todos<lb/> os seus aspectos. Sem isso, decidir é um acto gratuito ou desesperado ou louco. Há o perigo de ser "envolvida" pelo próprio tratamento? Há, mas também<lb/> dependerá do médico que souber escolher. O <name/> - não! Um <name/>, sim! Em minha opinião (e amigavel conselho) devias<lb/> ter uma conversa séria com a tua Irmã, tipo: "Vamos lá a ver o que há e o que há <hi rend="underlined">agora</hi> e <hi rend="underlined">aqui</hi> a fazer imediatamente. As coisas não se re-<lb n="false"/>solvem todas de uma vez. Vamos por partes e vamos lá ver por onde começar <hi rend="underlined">a sério</hi>". Sinto, pressinto melhor, que é importante impedir a tua<lb/> Irmã e de se enrolar numa bola de neve de desacertos e erros, de desesperos e fugas que fazem passar as horas, mas agravam os reais<lb/> problemas, a instabilidade, o descontentamento de si própria, etc. Estás - julgo-o convictamente - em condições de ajudar a tua irmã, melhor do nin-<lb n="false"/>guém. Não podes substimar a ajuda que está nas tuas mãos dar-lhe. Quis dizer-to mesmo com prejuízo de coisas outras que queria dizer-te.<lb/><lb/> Decididamente gostei dos <hi rend="underlined">postais</hi> para as miudas; das reproduções só de duas (desenhos Degas). Vê<del hand="CDD2010">-</del> se me arranjas mais (não há colecção?) dos<lb/> que tem uma historia em verso (trouxeste-me dois, azuis com letras e desenhos a branco). Quando tiveres ocasião ou vagar, lembras-te?<lb/><lb/> Já muito comprimidamente: peço-te encarecidamente que compres o <hi rend="underlined">boneco</hi> que a <name/> pediu (palhaço de corda a dar saltos: onde é que ela<lb/> teria visto isto? O facto é que existem mesmo). Sensibilizou-me o reparo da <name/> sobre os feltros para a <name/> e nada para ela. Não tem sentido eu dar voltas para comprar<lb/> o boneco que me é impossível arranjar aqui. Dá-lho como se tivesse sido enviado por mim pelo correio. Considero isto importante: apelo para a tua compreensão e sensi-<lb n="false"/>bilidade. Ao mesmo tempo, compra um livrinho de histórias para a <name/>: para não ficar agora ela a chuchar no dedo... O resto disto, dos postais compra-<lb n="false"/>dos e a comprar, dos cotovelos da camisola, da escova de dentes comprada, das peúgas compradas e de <abbr>qq</abbr> outra coisa <abbr>q</abbr> me tenha esquecido mencionar, diminuis ao<lb/> dinheiro <abbr>q</abbr> minha irmã me mandou e depois entregas-me ou envias-me o resto, se dele não precisares evidentemente! (Eu desisti <add hand="CDD2010" place="supralinear">por</add> agora do conserto dos oculos,<lb/> porque vou-me arranjando com os que tenho<del hand="CDD2010">.</del>) Já agora compra-me <hi rend="underlined">3 Sabonetes Glyce Ach Brito</hi>.<lb/><lb/> Não queria esquecer-me de te meter um empenho para que "fantasies" ou "mascares" a <name/> para a festa do colégio. Falo nisso a meu Pai, mas já não<lb/> deve ir a tempo dele "intervir". Ela vive - com toda a mimalhice de que <hi rend="underlined">tu</hi> a impregnas - o problema sentidamente. A miudinha já tem excessivas coisas que a dis-<lb n="false"/>tinguem das outras, que devemos evitar-lhe mais. É evidente que se fôr questão de dinheiro, avança e diz-me quanto é <del hand="CDD2010">diz-me</del> <add hand="CDD2010" place="supralinear">que eu</add> comprometo-me solenemente a arranjá-lo.<lb/><lb/> E com tudo isto ainda não te perguntei por ti, eixo disto tudo, subjacente a isto tudo e só aparentemente omitida. Tive que me limitar ao que<lb/> considerava mais imediato. Sábado, se tiver disposição, escreverei; e sobretudo se tiver recebido essas cartas rascunhadas, tuas: porquê, mas porquê? Compreende<lb/> que te amo e que preciso das tuas cartas para além, muito para além da estilistica! (Que peneiras no meio disto!)<lb/><lb/> Conta-me das miudas e de ti. Como é que as <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> miudas vêm da escola? Como é que vão? Responde-me às perguntas sobre como é isto, etc.<lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Abraços à tua Mãe e à tua Irmã. Muitas meiguices e beijos às miudas.</seg></p>
            <closer>
                <salute>Com amor, beijo-te</salute>
                <signed><name/></signed>
            </closer>
            <ps><p>Ps o tabaco de cachimbo não esqueças que eu prefiro mesmo o "branco" (caixa branca). Por favor, <hi rend="underlined">diz-me quando fazem anos a <name/>, a <name/> e o <name/><lb/> <name/></hi><pb n="[1]r"/> PS: Estava para mandar a meu Pai uma <hi rend="underlined">foto da <name/></hi> das tiradas pela tua irmã. Mas só tenho duas, e além disso, agradava-me<lb/> muito mais que fosses tu a enviar-lhe uma! Fazes mesmo isso? Confio que sim!<lb/> <name/></p></ps>
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