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                <title>1967. Carta de amor de um alferes para a sua namorada. De Luanda para  [Coimbra] (concelho). FLY0069</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="AG">Ana Guilherme</name></resp>
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                    <resp n="contextualization"><name>Joana Pontes</name></resp>
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                <respStmt><resp n="revision"><name>Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2011">2011</date>
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                    <p>Copyright 2011, CLUL</p>
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            </publicationStmt><sourceDesc>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A.</institution>
                        <repository>N.A.</repository>
                        <collection>Coleção Particular</collection>
                        <idno>FLY0069, Fólios [1]r-v, [2]r-v</idno>
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                        <dateLet attested="yes">1967.10.15
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                        </dateLet>
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                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
                        <support>
                            <p>duas folhas de papel pautado de 32 linhas escritas em ambas as faces.</p>
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                        <extent>                            
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                            <p>quatro  linhas em branco a separar a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                            <p></p>
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                        <class n="type">notícias</class>
                        <class n="linguisticSource"></class>
                        <class n="socioHistoricalSource">guerra colonial</class>
                        <class n="sociologySource">intimidade, serviço militar, religião, família, educação, saúde</class>
                        <p>O autor conta à namorada o domingo formidável que passou. Fala-lhe ainda da preocupação que o seu irmão lhe dá.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0063</p>, <p>FLY0064</p>, <p>FLY0065</p>, <p>FLY0066</p>, <p>FLY0068</p>, <p>FLY0070</p>, <p>FLY0071</p>, <p>FLY0072</p>, <p>FLY0073</p>, <p>FLY0074</p>, <p>FLY0075</p>, <p>FLY0076</p>, <p>FLY0077</p>, <p>FLY0078</p>, <p>FLY0079</p>, <p>FLY0080</p>, <p>FLY0081</p>, <p>FLY0082</p>, <p>FLY0083</p>, <p>FLY1315</p>, <p>FLY1316</p>, <p>FLY1317</p>, <p>FLY1318</p>, <p>FLY1319</p>, <p>FLY1320</p>, <p>FLY1321</p>, <p>FLY1322</p>, <p>FLY1323</p>, <p>FLY1324</p>, <p>FLY1325</p>, <p>FLY1326</p>, <p>FLY1327</p>, <p>FLY1328</p>, <p>FLY1329</p>, <p>FLY1330</p>, <p>FLY1331</p>, <p>FLY1332</p>, <p>FLY1333</p>, <p>FLY1334</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
                        <surrogates>
                         <p>     
                             <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                             <bibl><xref n="FLY0069_1.JPG"/></bibl>
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                            </p>
                        </surrogates>
                        <note n="context">
                            <p>Guerra Colonial</p>
                        </note>
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        <encodingDesc><projectDesc>
            <p>Projecto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, 
                migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
        </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra e suprimindo-se os sinais de mudança de linha para facilitar operações de busca automática. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, e as formas acrescentadas nos mesmos originais transcreveram-se na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar pela letra [L] e as de outros dados pela letra [D]. Finalmente, as cartas acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
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                <language n="PT"/>
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>janeiro de 2012</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Ana Guilherme</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
            <change>
                <date>março de 2014</date>
                <respStmt>
                    <resp>
                        <name id="RM_AG">Rita Marquilhas e Ana Guilherme</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Revisão da leitura</item>
            </change>          
        </revisionDesc>
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            <pb n="[1]r"/>
            <opener>            
                <date>Luanda, 15 de Outubro de 1967</date>
                <salute><name/>:</salute>
            </opener>            
            <p>Estou a escrever-te no domingo à tarde, antes de<lb/> ir para a Messe jantar. É provável que ainda hoje<lb/> nã<del hand="CDD2315">a</del>o possa acabar a carta a tempo de a mandar para<lb/> o aeroporto.<lb/><lb/> Acabei <name/>, há pouco de viver uma das emoções<lb/> mais fortes da minha vida. Há tempos que ansiava<lb/> por uma oportunidade destas. Dei um passeio aéreo.<lb/> Há já algum tempo que havia sido convidado para<lb/> dar uma volta de avião, por um rapaz que foi<lb/> do meu pelotão de instrução básica, e que tem<lb/> "brevet" e é sócio do Aero Clube. Hoje, depois de<lb/> almoçar e ter vindo ao meu quarto, como não tinha<lb/> nada de especial a fazer lembrei-me de lhe telefonar.<lb/> Ele é dono dum Hotel Residencial cá em Luanda.<lb/> Ele próprio me atendeu e passado algum tempo veio<lb/>me buscar ao quartel de carro e lá fomos, eu<lb/> na espectativa. E não foi sem uma certa emoção<lb/> que me vi lá nos ares. Sobrevoámos toda a cidade de<lb/> Luanda durante quase uma hora e depois uma ilha<lb/> chamada a ilha de Mussulo e que é parisidíaca,<lb/> situada já a uns bons quilómetros da costa.<lb/> Gostei imenso do passeio, que durou hora e meia.<lb/> Ainda fez umas avarias com voos picados e curva<lb/> apertada e eu ao princípio receoso e na espectativa,<lb/> já estava depois completamente descontraído. Voá<lb n="false"/>mos numa avionetezinha. Tirei um rolo completo<lb/> de fotografias <del hand="CDD2315">de</del> que depois enviarei.<lb/> Depois de descer, fui para o o hotel dele onde<pb n="[1]v"/> me convidou para tomar umas bebidas. Em seguida<lb/> veio-me trazer ao quartel.<lb/><lb/> Olha hoje estou bastante satisfeito com o meu<lb/> dia. às sete da manhã fui à Missa, depois de<lb/> três domingos a zero, e comunguei, pois confessei-me<lb/> ontem. Sinto-me outro e mais alegre. Realmente<lb/> o Senhor é formidável! Ainda bem.<lb/><lb/> Depois de vir da missa, fui ter a casa do <name/><lb/> tendo ido com ele e mais um grupo de rapazes<lb/> e moças para a praia. Esteve uma manhã<lb/> de praia formidável, com um sol forte e um<lb/> mar estupendo. Estou todo queimado, quase<lb/> pareço um "pretinho". Viemos da praia e<lb/> fui almoçar <del hand="CDD2315">para</del> à Messe, e de lá vim para<lb/> o quartel. Tudo o que se seguiu já te contei.<lb/> Agora à noite não saio, preciso de estudar e pre<lb n="false"/>parar umas instruções para amanhã. A vida é<lb/> dura e mais uma semana de trabalho e de<lb/> responsabilidade vai começar. Também se<lb/> não aproveitar o fim de semana para mudar<lb/> de ambiente e me divertir, dou em maluco,<lb/> sempre aqui fechado toda a semana, sem<lb/> tempo para nada práticamente, sempre a trabalhar no duro.<lb/><lb/> Olha a partir de terça ou quarta-feira vou deixar<lb/> de almoçar na Messe, pois perco imenso tempo para<lb/> lá ir, que me faz muita falta. Passo a jantar<lb/> aqui junto ao Quartel numa casa de comidas. Não<lb/> me fica mais barato, mas se tivermos em conta<lb/> que o tempo é dinheiro, fica.<lb/><lb/> Querida <name/>, obrigado por me teres enviado<lb/> a certidão e o livro com os programas oficiais. Já<lb/> recebi tudo.<pb n="[2]r"/> Então como te tens sentido, depois de passada<lb/> esta preocupação dos exames? Concerteza que mais<lb/> calma.<lb/><lb/> E o estâmago? Continuas a sentir-te bem com o<lb/> chá? Quando precisares, tu e o <name/>, de mais é só<lb/> mandarem dizer. Está bem?<lb/><lb/> Quanto ao que me dizes sobre a prenda que te<lb/> mandei, fico satisfeito por saber que gostaste. Quanto<lb/> ao mereceres ou não o que te faço eu é que sei, está<lb/> bem? Bem sabes que para mim tu mereces tudo,<lb/> deste todo o meu amor e a minha dedicação, até<lb/> ao insignificante valor material de todas as coisa que<lb/> te puder oferecer. Só tenho pena é de não ter dinheiro,<lb/> nem possibilidades de envio, para te oferecer mais e<lb/> melhores coisas. Apesar da distância e apesar das mi<lb n="false"/>nhas faltas de correspondência de vez em quando, tu<lb/> continuas e continuarás para sempre a ocupar um<lb/> lugar impar na minha vida. E podes estar descan<lb n="false"/>sada, que o <name/> nunca mudará de ideias, mesmo com<lb/> a autêntica caça ao homem e ao alferes, que muitas me<lb n="false"/>ninas da melhor sociedade de cá fazem! Já não é só<lb/> ao que tem carro. Tudo serve! Mas como já não<lb/> tenho 17 anos e a vida já me tem dado muita expe<lb n="false"/>riência em todos os aspectos, isso comigo não "pega".<lb/> <name/> ainda bem que o ambiente em tua casa<lb/> melhorou com o êxito dos teus exames e ainda bem<lb/> também que os teus pais te disseram que continuavas.<lb/> Um dia lhes havemos de retribuir todo o sacrifí<lb n="false"/>cio que estão a fazer por ti.<lb/><lb/> Então já começaram as aulas? Tens os mesmos<lb/> professores? Tens mais cadeiras ou as mesmas do<lb/> ano passado? Agora com a tua irmã também<lb/> no Instituto, sentir-te-ás melhor pois já tens compa<pb n="[2]v"/>nhia. Que tal o teu horário? Antes que me esqueça, dá<lb/> os meus cumprimentos à <name/>.<lb/><lb/> A <name/> anda já melhor do coração? Ela que tenha cuidado com o coraçãozinho que é uma coisa muito im<lb n="false"/>portante...!<lb/><lb/> <name/>, quanto ao que me dizes sobre o meu irmão,<lb/> e tendo em conta aquilo que o Cabral também me<lb/> mandou dizer, digo-te que ando preocupado com<lb/> ele. Não sei quando é que aquele rapaz se faz ho<lb n="false"/>mem e começa a pensar a sério nos problemas da<lb/> vida. Na idade já não é nenhuma criança. Eu com<lb n="false"/>preendo em parte certa maneira de proceder dele.<lb/> Não tem amigos e por hereditariedade é teimoso e um<lb/> pouco orgulhoso.<lb/><lb/> Obrigado pelo que tens feito por ele. <name/>, continuo<lb/> a pedir-te que faças o que puderes por ele. Fala-lhe<lb/> com energia e toca-lhe simultâneamente ao coração.<lb/> Diz-lhe que eu, cá longe, espero muito dele e gostava<lb/> de o ver um homem realizado. Convida-o para<lb/> passear contigo e faz-lhe sentir que és da famí<lb n="false"/>lia e és amiga dele. O meu irmão precisamente<lb/> porque nunca teve amigos verdadeiros, a não ser a famí<lb n="false"/>lia, não confia em ninguém e também porque é teimoso<lb/> e orgulhoso. É preciso primeiro que conquistes a ami<lb n="false"/>zade dele e a sua confiança e depois ser dura<lb/> e incisiva para ele e não ficar no rir-se das<lb/> maca<del hand="CDD2315">d</del>cadas e brincadeiras que ele faz. Vai-me<lb/> dizendo alguma coisa sobre ele.<lb/><lb/> Faço ideia do que a minha pobre mãe, tem so<lb n="false"/>frido com ele! Coitadita.<lb/><lb/> Eu continuo óptimo. Estou a dar instrução no duro, porque<lb/> tenho de preparar bem os meus homens.<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Vou terminar. Cumprimento para os teus pais, <name/>, <name/>,<lb/> <name/> e pessoas amigas. Adeus, querida <name/>, estou sempre con<lb n="false"/>tigo, o teu sempre</seg>  
            </p>            
            <closer>                        
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