<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<?xml-stylesheet type="text/xsl" href="CardsFly1.xsl"?>
<!DOCTYPE TEI.2 PUBLIC "-//CTB//DTD Dalf 1.0 (based on TEI)//NL" "DALF.dtd">
<TEI.2>
    <teiHeader>
        <fileDesc>
            <titleStmt>
                <title>1970. Carta de amor entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY1039</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
                <respStmt>
                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
                </respStmt>
                <respStmt>
                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
                </respStmt>
                <respStmt>
                    <resp n="transcription"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
                </respStmt>
                <respStmt><resp n="revision"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
                </respStmt>
                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
                <respStmt>
                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
                </respStmt>
            </titleStmt>
            <publicationStmt>
                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
                <address>
                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
                </address>
                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
                <availability status="restricted">
                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
                </availability>
            </publicationStmt>
            <sourceDesc>
                <letDesc>
                    <letIdentifier>
                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY1039, Fólios [1]r-v</idno>
                    </letIdentifier>
                    <letHeading>
                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2011" id="CDD2011">CDD2011</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1970.07.01
                            <date value="1970"/>
                        </dateLet>
                    </letHeading>
                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
                        <support>
                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche.</p>
                        </support>
                        <extent>
                            <dimensions><height units="mm">275</height><width units="mm">211</width></dimensions>
                        </extent>
                        <layout>
                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
                        </layout>
                        <condition>
                            <p></p>
                        </condition>
                    </physDesc>
                    <envOcc occ="no"/>
                    <letContents>
                        <class n="type">expressão de amor</class>
                        <class n="linguisticSource"></class>
                        <class n="socioHistoricalSource">prisão</class>
                        <class n="sociologySource">família, comunicação social, saúde, cultura, condições económicas, educação, justiça</class>
                        <p>O autor mostra-se enternecido e contente com as notícias que recebeu da mulher. Revela como sente, na prisão, que mesmo assim acompanha a vida da destinatária e das filhas de ambos. Dá conselhos sobre a forma como a destinatária deve agir em relação a uma série de problemas familiares. Comenta uma leitura de Hemingway e fala de livros que quer vir a ler. Termina com o pedido dos seus óculos e de uma caneta.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                            <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
                        <surrogates>
                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY1039_1.JPG"/></bibl>
                                <bibl><xref n="FLY1039_2.JPG"/></bibl>
                            </p>
                        </surrogates>
                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
                    </additional>
                </letDesc>
            </sourceDesc>
        </fileDesc>
        <encodingDesc>
            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <profileDesc>      
            <langUsage>                 
                <language n="PT"/>             
            </langUsage>
        </profileDesc>
        <revisionDesc>
            <change>
                <date>julho de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Leonor Tavares</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
        </revisionDesc>
    </teiHeader>
    <text id="FLY1039">
        <body>
            <opener>
                <address><addrLine>Peniche</addrLine></address>
                <date>1. Julho. 1970</date>
                <salute>Meu Amor:</salute>
            </opener>
            <p>Estou com saudades tuas, pronto.<lb/><lb/> Deliciaste-me com o teu postal. Não consegui resistir ao encanto (só tu!) de te ver a escrever dois postais, em vez <note n="contraction">d</note> uma<lb/> carta, porque a carta exige (!!?) rascunho, e ainda a parecer que aproveitavas naturalmente, com grande expontaneidade, vários mo-<lb n="false"/>mentos do dia para ires escrevendo. Nem remetente puzeste e eu gostei. Sobretudo porque te senti confiante, alegre, "desini-<lb n="false"/>bida e senhora de ti". Quase não resisti à tentação de te enviar um telegrama e exprimir tudo isto.<lb/><lb/> O proprio facto de saber que ias à praia com as nossas miudas e a nossa Mãe, me consolou do desgosto de te não<lb/> ver. Li no Século Ilustrado da semana passada as andanças e os atropelos inevitáveis para ir às praias dos arredores de Lisboa; vai daí,<lb/> puz-me no domingo a imaginar-vos aos encontrões, quase desfeitas, felizes, queimadas, exaustas. De certo modo, fui também e, além<lb/> disso vinguei-me... É claro que não consegui deixar de me preocupar com a idade da tua Mãe, a rabiteza das miudas, etc.<lb/><lb/> Só depois preocupado porque a <name/> disse que te telefonara e lhe disseras que a tua Mãe estava doente. Ainda<lb/> quero supor que tivesse sido apenas uma desculpa, mas não consigo convencer-me. Preocupado com a tua Mãe e triste ao<lb/> ver ir por água a baixo o vosso passeio, a alegria das miudas, a satisfação da tua Mãe e a tua.<lb/><lb/> Não sei o que tens previsto em relação à saude da tua Mãe. Talvez pensando um bocado não fosse dificil concretizar<lb/> a sua ida a um médico especialista competente e indicádo. Não há problemas, penso eu, em arranjar apresentação para um médico, pelo<lb/> meu Pai, pelo <name/>, pelo teu cunhado, pela tua amiga <name/>, etc. Também é fácil pedir à <name/> ou a qualquer outra pessoa (à<lb/> tão tua amiga <name/>, por <abbr>ex</abbr>) para ficarem uma tarde com as miudas, se for esse o problema; a ti também não deve ser impossí-<lb n="false"/>vel faltar uma tarde para ires com a tua Mãe (ou já és imprescindível no emprego?). Sugiro que vejas isto a sério porque podes vir<lb/> a arrepender-te e a culpar-te de não o teres feito. Quanto mais cedo melhor!<lb/><lb/> Tenho andado a pensar no pedido de autorização para o casamento. Quero fazê-lo, se possível, ainda esta<lb/> semana. A dificuldade é a seguinte: pedindo autorização é necessário tratar de várias coisas (não sei bem quais, mas calculo) que<lb/> exigem esforço e dinheiro. Esforço não é comigo... Dinheiro, ainda menos: nem mesmo recebi ainda o livro para começar<lb/> a tradução. Estava a contar que os meus Pais me valessem, mas não sei quando regressam, embora suponha que não vai de-<lb n="false"/>morar muito mais. Ora a tua Mana vem neste mês... Enfim, não sei como me desembrulhar. Entretanto, cumprindo as<lb/> tuas ordens, vou requerer autorização e ver se consigo tirar o cartão de identidade, para o que já há meses estou autorizado.<lb/> Se cá vieres neste fim de semana, já devo ter novidades a dar-te.<lb/> Como tu és "cruelzinha" para a nova colega. Sim, senhora. Andas agora impante e ainda fazes pouco de... ti<lb/> própria. É saudável, mas tinhas a obrigação de dar a mão à palmatória, de dizer que eu tinha toda a razão, etc, etc e tal. O que verda-<lb n="false"/><pb n="1v"/>deiramente importa é que conseguiste vencer uma situação, afinal <hi rend="underlined">facilmente</hi>, e que tal facto pode ser muito importante se nele reflectires e o ganhares como ex-<lb n="false"/>periência consciente. Podem voltar, nesta ou naquela curva mais dura, os desânimos ou os medos de não seres capaz. Mas aprendeste a como reagir em<lb/> tais circunstâncias dificeis, a manter nesses momentos a certeza de que há uma saida, de que também o desespero é momentâneo, de que o tempo joga<lb/> a teu favor. Pode-se viver muito tempo longe dos aspectos essenciais da vida e, de repente, ver-se reduzido à solidão, à espantosa amargura<lb/> de não saber o que é feito de quem se ama, ao sofrimento mais duro e à hipótese da própria morte. A minha experiência é que é salutar,<lb/> porque vemos exactamente e sem mentiras e sem escapatórias e sem disfarces<del hand="CDD2010">;</del>, o pouco que é essencial em cada um de nós; a profundidade visceral<lb/> de certos afectos (mesmo algum tempo distorcidos e perturbados); o que, de facto, temos pena de perder e deixar; e o quanto tantas e<lb/> tantas coisas são irrisórias, pobres, acidentais. Ainda há dias li um conto extraordinário de Hemingway (As Neves de Kilimanjaro) que conse-<lb n="false"/>gue precizamente transmitir tudo isto.<lb/><lb/> Á proposito: aonde é que foste reler o Adeus <hi rend="underlined">bem</hi> português? Não acredito que soubesses de cor... O que é que reco-<lb n="false"/>meçaste a ler? Essa é uma noticia de arromba e bastante animadora... A serio, é bom, é um reganhar de interesse pelas coisas boas.<lb/> Faz-me crer que não estará longe o dia em que dispensarás o luxo do <abbr>Dr</abbr> <name/>. Francamente, como é que te sentes de saude?<lb/> Do sistema nervoso, sim, mas também do resto? Quando é que olharás o problema de frente?<lb/><lb/> Voltando a livros: hás-de me dizer como é que se chama esse livro sobre pintura, autor, etc. E outros que por aí<lb/> vás arranjando. A tua amiga <name/> não tem nada de recente que empreste? Ou só é tua amiga e muito pouco, ou nada, minha?<lb/> Mas não tragas antes de me dizer. Trazes-me os títulos e autores e eu depois digo-te se quero ou não.<lb/><lb/> As nossas queridas catraias? Escrevi à <name/>, além <note n="contraction">d</note> outras coisas, a referir a hipótese da ida da <name/> passar<lb/> com eles o tal mês de férias. Vamos a ver o que me responde. Enviei-lhe um desenho da <name/>, que por engano me mandaste,<lb/> pois tinha escrito <name/>. Porque não lho mandaste? É o mais colorido. Os outros são figuras e menos vivos. Tens que pedir à<lb/> <name/> e à <name/> que façam flores e barcos, etc - coisas com cores porque eu gosto das cores que combinam. Gosto de tudo<lb/> que é delas. Reconheço que atinjo um estado apatetado, incritico e acritico. Fazem-me falta. Como tu. Não consigo compreender<lb/> como é possível pensar-se que o amor aos filhos<del hand="CDD2010">,</del> diminui o amor entre os pais. Eu julgo que, pelo contrário, ambos se continuam<lb/> e aprofundam. Misturam-se intimamente e enriquecem-se. Ao olhar a <name/> e a <name/>, ao amá-las, vejo-te também a ti e<lb/> amo-te também a ti, mas pequenina. Sei que nos prolongam a ambos e desejo que se multipliquem também ainda para te reencon-<lb n="false"/>trar. Isto é assim. E os anos da nossa <name/>, já pensaste neles?<lb/><lb/> Por falar em anos, não quero esquecer-me de te dizer, ou lembrar, que a <name/> faz anos no dia 3. Manda-lhe<lb/> um telegrama, e deita para trás das costas o resto.<lb/><lb/> Em postal ou em carta, com ou sem remetente, escreve! Confiante e natural e expontânea, escreve!<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Beija-me muito as nossas filhas. Que lhes escrevo no sabado. Que as amo muito e brinco com elas.<lb/><lb/> Abraços a tua <del hand="CDD2010">m</del>Mãe. Beijo-te com muito amor.</seg></p>
            <closer>
                <signed><name/></signed>
            </closer>
            <ps><p>PS: Óculos?<pb n="[1]r"/> P.S- Como compreendes, faz-me muita falta a caneta que já tens. <hi rend="underlined">Peço-te<lb/> muito que ma tragas</hi> e mais te peço que não a percas ou estragues ou qualquer<lb/> outra coisa. Por favor, não esqueças este pedido<lb/> <name/></p></ps>   
        </body>
    </text>
</TEI.2>


