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                <title>1970. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY1042</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
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                <respStmt><resp n="revision"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY1042, Fólios [1]r-v</idno>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2011" id="CDD2011">CDD2011</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1970.08.29
                            <date value="1970"/>
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                        <type>carta</type>
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                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche.</p>
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                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
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                        <class n="type">queixa</class>
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                        <class n="socioHistoricalSource">prisão</class>
                        <class n="sociologySource">família, educação, emprego, condições económicas</class>
                        <p>O autor queixa-se da desilusão que teve quando soube que a mulher e a filha não o iriam visitar. No entanto, mostra-se compreensivo em relação a essa falta, justificada por causas familiares. Aconselha a destinatária quanto à sua conduta na relação com a família por afinidade e reitera-lhe o seu amor. Refere um problema financeiro e demonstra como conta com a ajuda do pai para o resolver. Pede também uma haste de óculos, especificando a marca.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
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                    <additional>
                        <adminInfo>
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                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
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                        </adminInfo>
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                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
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                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
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            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <profileDesc>      
            <langUsage>                 
                <language n="PT"/>             
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>julho de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Leonor Tavares</name></resp>
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                <item>Codificação DALF</item>
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            <opener>
                <address><addrLine>Peniche,</addrLine></address>
                <date>29. Agosto. 1970</date>
                <salute>Meu Amor querido:</salute>
            </opener>
            <p>Lançaste-me o dilema para os braços. Inicialmente vieram ao de cima problemas pessoais e não o compreendi muito bem. Deixei-<lb n="false"/>-me levar pelo sentimento de decepção de não vires cá, de não te ver, de não podermos conversar, estar, apesar de tudo, alguma coisa juntos. Tenho sauda-<lb n="false"/>des tuas; apetece-me ouvir o chilrear da <name/>, as suas boquinhas, as suas poses tão delicadamente femininas já. Depois, contava contigo, vivera a tua visita<lb/> como um facto real que os dias avizinhavam. Sobretudo queria ver-te, estarmos.<lb/><lb/> Chegou-me há meia-hora a tua carta, talvez um pouco mais. Pouco a pouco, não pude deixar de considerar outros factores;<lb/> acabei por concluir que, mais uma vez, tinhas razão; que me competia decidir a mim. Eu sei que não há outra saída senão dizer-te que vás ao<lb/> Aeroporto; que não vale a pena resistir a uma solução que é a única possível. Penso no quanto amo a <name/> e a <name/> e a <name/> e a <name/> e não<lb/> me posso excusar <gap reason="cancelled" extent="1 letter"/> a telegrafar-te a dizeres que vás ao Aeroporto. (É o que faço agora). Custa-me muito, arrepelo-me, mas não tenho outra coisa a fa-<lb n="false"/>zer. Não sei qual o estado de saude dos meus Pais, particularmente de minha Mãe; podem impor-se quaisquer medidas de auxílio, de préstimo e não<lb/> quero que o deixes de fazer mesmo com o meu sacrifício. Preocupa-me, aliás, seriamente, como tantas vezes te disse, o estado de saude de meus Pais - e<lb/> esta longa viagem não lhes há-de ter feito muito bem. Nem mesmo psicologicamente: repara, de certo modo, foram "despedir-se" do filho e<lb/> dos netos. E não deve ser facil para ninguém despedir-se assim, com a noção premediata e irrecusável de que se despedem, de que é isso que vão<lb/> fazer. Isto doi-me, aflige-me porque nada posso fazer, nem mesmo posso negar que as coisas são assim. (Que balanço dão da vida? Como reagem<lb/> por dentro a essa certeza de poucos, inevitavelmente poucos anos?).<lb/><lb/> Mas não é só isso, <name/>. Tambem pesa o facto de desejar muito que as vossas (tuas e de meus Pais) relações se normalizem,<lb/> a um nível de razoável convivência (mesmo que distante). Tu não ires, teria um significado "simbólico", cheio de implicações e agravos que é<lb/> preciso evitar, mesmo com o custo de não te ver, de não ver a <name/>. Peço-te que, sem cedências que não defendo, faças o que estiver na tua<lb/> mão para diminuir desentendimentos e questiúnculas. Mas sem cedências que te repugnem ou que só agravariam situação futura. Penso, por exem-<lb n="false"/>plo, na nossa <name/> que deve continuar a viver contigo, que não deves deixar admitir, ou sonhar sequer, que possa viver longe de ti. Nem vale<lb/> a pena discutir ou dar muitas razões: és a Mãe e pronto. Com delicadeza, com sinceridade tambem, mas com firmeza defende a tua personalidade<lb/> e a tua vontade; sem causar feridas, mas sem transigências. Estás certa e eu amo-te - é o que importa. É isso mesmo: é <quote n="idiom">uma no cravo<lb/> e outra na ferradura</quote>! Mas tu entendes-me, sabes o que quero exprimir, como te quero defender de "absorções" entorpecedoras e como quero<lb/> que, sendo como és e eu amo, evites, tanto quanto possível (e às vezes não será possível), feri-los, magoá-los, etc. E também que te sintas magoada<lb/> ou vexada ou atingida quando não há razão para isso, ou há apenas uma razão superficial, de circunstância, de palavra puxa palavra.<lb/><lb/> Releio o que escrevi. Estive a convencer-me a mim próprio, penso. De facto, não foi só isso, mas foi-o em muito. No fundo<pb n="[1]v"/> <gap reason="cancelled" extent="2 words"/> não é nada facil convencer-me que não vens cá, que não tenho uma longa conversa com a Carocha...<lb/><lb/> (No telegrama peço-te que não alarmes meus Pais com a saude da <name/>. O <name/> e a Mana é que estão em condições de colocar a questão<lb/> nos termos mais realistas e menos chocantes. Não achas tambem?)<lb/><lb/> Exageras, exageras e não é pouco. Há grande diferença entre as facturas e as tuas cartas. A primeira e a fundamental é que as tuas cartas<lb/> falam-me de ti, da <name/>, das coisas que me dizem respeito - e que nunca me são frias. Depois porque eu consigo "ver-te" a escrever-me, o que<lb/> vais pensando, às vezes hesitações que tens, às vezes o que queres dizer mas achas que deves dizer só um bocado, etc. Muitas vezes, eu sei-o, me hei-de<lb/> enganar, mas, de qualquer modo, é divertido: surgem<add hand="CDD2010" place="supralinear">-me</add> expressões tuas esquecidas, situações, nossa vida.<lb/><lb/> Emprego. Bem, não digo mais nada. Só que ordenado baixou bastante; só que perspectiva de aumento deve lá ser nula<lb/> ou quase nula, enquanto no actual emprego não o é. Bem, tu é que sabes. Não idealizes de mais, para não sofreres depois desilusões,<lb/> mas resolve de acordo com o que vires claramente.<lb/><lb/> Então a blusa que te dei? Porque é que não dizes nada? É para me fazeres a surpresa ou a surpresa é outra?<lb/><lb/> Sobre a escola das miudas. Fiquei "furioso" comigo mesmo. Podias ter posto o problema com clareza e <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> antecipadamente,<lb/> mas eu também o podia ter resolvido sem estar à espera. Conto ter, por estes dias, visita de meu Pai: se tiver coloco-lhe a questão mui-<lb n="false"/>to clara e instantemente (SÓ NÃO SEI QUAL É O CUSTO EXACTO MENSAL...). Se não tiver, quarta-feira escrevo-lhe a ele e aos meus irmãos e o<lb/> assunto resolve-se quase com certeza absoluta. Se não se resolver terei que tomar outras medidas, mas não será necessário, julgo. Podes estar<lb/> absolutamente certa disso. Eu é que, confiando em que me dizias qualquer coisa, não supunha (ou melhor, nem pensei nisso) que era necessá-<lb n="false"/>rio pagar já no acto de matrícula ou de inscrição. (E se calhar não é; tu é que temeste que fosse).<lb/><lb/> Dizes "Todos os meus beijos para ti (coitadinha da <name/>!)". Não percebo. E a <name/>? Coitadinha da <name/>  que a<lb/> Mãezinha dela, de quem tanto gosta e ama, esquece-se de falar nela. Fia-te nessa fiteira da <name/>, que depois vais ver. Até já sabe contar<lb/> até 30, a finória. Alguma coisa tem em vista, acautela-te! (E a fotografia que eu pedi indirectamente à <name/>? Eu vingo-me!)<lb/><lb/> Há uma coisa muito importante. Escreves: "Recebi resposta à carta que escrevi há tempos. Espero que se vejam os resultados". Não<lb/> sei a que te referes, ou melhor, <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> suponho que <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> só te podes referir ao requerimento que fizeste. É? Se é, peço-te com urgência que me<lb/> mandes dizer exacta e explicitamente a resposta que recebeste. É um assunto que, naturalmente, me interessa.<lb/><lb/> Outra coisa importante que só a ti posso pedir: uma haste de óculos, marca "PERSOL-RATTI" - 14,5 cms. É para substituir a que<lb/> está partida e que, por mais que eu faça, não tem concerto decente. Desculpa o trabalho, mas vê se te é possivel.<lb/><lb/> Sabes que mais: não me conformo com a ideia de que não vens cá. Foi um balão color<del hand="CDD2010">a</del>ido e vivo e lindo que rebentou,<lb/> subitamente. Estou danado, trite, tramado. (Nem me disseste o que fizeste no sábado e domingo passados...). Enfim, aproveita o tempo,<lb/> descansa, passeia, <hi rend="underlined">escreve-me</hi>, diz-me o que fazes, conta-me da <name/>, da tua Mãe, do teu emprego. Pensa que te amo e que nada do<lb/> que me vem de ti me pode parecer impessoal e frio. Pensa que é funda a alegria com que leio notícias tuas. Pensa que tenho saudades<lb/> tuas e da <name/> e da <name/> e que estou todos os dias, um pouco, convosco, em vós. Todos os meus beijos para ti (coitadinhas da <name/> e da<lb/> <name/>). Com muito amor,</p>
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                <salute>teu</salute>
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