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                <title>1970. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY1067</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY1067, Fólios [1]r-v</idno>
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                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2011" id="CDD2011">CDD2011</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1970.03.18
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                        <type>carta</type>
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                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche.</p>
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                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
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                        <class n="type">crítica</class>
                        <class n="linguisticSource"></class>
                        <class n="socioHistoricalSource">prisão</class>
                        <class n="sociologySource">família, justiça</class>
                        <p>O autor critica a destinatária a partir de elementos que passou a conhecer depois de lida uma carta dela. Os pontos que discute têm a ver, aparentemente, com relações familiares e com a saúde da mulher. Termina falando sobre encomendas recebidas na prisão e sobre notícias do seu advogado e do seu processo de defesa.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
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                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
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                        </adminInfo>
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                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY1067_1.JPG"/></bibl>
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                        <note n="context">
                            <p>prisão</p>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <revisionDesc>
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                <date>outubro de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Leonor Tavares</name></resp>
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                <item>Codificação DALF</item>
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            <opener>
                <address><addrLine>Peniche,</addrLine></address>
                <dateline>18. Março.1970</dateline>
                <salute><abbr><name/></abbr>:</salute>
            </opener>
            <p>A tua carta provocou-me sucessivas reacções, às quais corresponderam sucessivas cartas...<lb/><lb/> Comecei por te dizer, mentalmente, que afinal não eras muito forte em interpretações, mas em troca que te<lb/> sobrava da boa ironia camiliana ou queiroziania. Valha-nos ao menos esse senso de humor... negro.<lb/><lb/> Depois entrei numa polémica, mentalmente, bastante acesa contigo em que demonstrava por a + b a<lb/> injusteza de 90 a 99% da tua carta, como arrastaras as coisas para um terreno equívoco e falso, onde todo o<lb/> diálogo <gap reason="cancelled" extent="3 letters"/> é impossivel, talvez sem interesse para ninguém, etc. (Nesta fase, atingi uma elevada irritação e fui<lb/> reler a tua querida cartinha).<lb/><lb/> Decidi, então, mentalmente, não te "ligar", fazer de conta, não te responder. (E fui dormir, sem<lb/> insónias, o sono dos justos, mesmo dos justos incompreendidos - que é o meu caso.)<lb/><lb/> Hoje, já bem dormido, com um dia cheio de sol e os pássaros a andarem por aqui a piarem,<lb/> já as coisas me surgiram diferentes, menos pessoalizadas. E comecei a achar-te piada. Vi que tinha que<lb/> te responder não fosses ficar inquieta com o meu silêncio. Depois resolvi não reler a carta para não me deixar<lb/> fixar nos pormenores. Havia simplesmente que te responder no meu terreno, descontraidamente. Inocentemente...<lb/><lb/> Primeiro ponto: afinal a minha carta, mesmo do ponto de vista psicoterapéutico, deu bons resultados. Escre-<lb n="false"/>veste, e não pouco, disseste o que sentias e talvez mesmo o que não quizesses, desceste ao terreno dos simples sãos,<lb/> reagiste! Já não é mau, nestes tempos que vão correndo. Conclusão: tenho mesmo que insistir com idênticas cartas.<lb/> Sentes ou não que te fez bem desabafar? Agradeces ou não a oportunidade que te dei? Certo?<lb/><lb/> Segundo ponto: Eu não tenho nada com o que se passou ou não passou nestes 10 meses. A nada<lb/> assisti, nada ou quase nada sei, etc. O que decididamente afirmo é que também não vale a pena ficar (seja quem for) a<lb/> remoer as coisas toda a vida, nem fazer delas um drama em 5 actos e muitos alguidares. O melhor é supreender uns e outros,<lb/> não esquecer que todos são pessoas válidas, etc. Ver as coisas com objectividade e despreendimento. Ultrapassar as feridinhas pessoais.<lb/> E para além de tudo não me meterem no meio do barulho... Certo?<pb n="[1]v"/> Terceiro ponto: não tens nada que explicar, nem a minha preocupação foi ou é ou poderia ser essa. Se achas que fizeste o que<lb/> pudeste, etc - não tenho nada contra. Simplesmente não foi isso que eu compreendi do que tu me disseste. O que eu compreendi do que<lb/> <hi rend="underlined">tu me disseste</hi> foi que, a partir de certa altura, o que te impedia de resolver problemas era a tua falta de confiança em ti<lb/> própria, a tua timidez, etc, etc. Por isso ficavas à espera do <name/>, não ias aqui e acolá, etc. Afinal não compreendi bem e as coisas<lb/> não são nada assim, etc, etc? Optimo, fico contente, abraço-te, etc! Certo?<lb/><lb/> Quarto ponto: Como comprendi mal (desculpa!) o que procurei sublinhar foi que: a) o tratamento médico tinha o perigo de te "tran-<lb n="false"/>quilizar" e "adormitar" sobre os problemas (emprego, saude, filhos, casa, etc); b) tu própria acabarias por te sentir derrotada com uma situação<lb/> que aos <hi rend="underlined">teus</hi> olhos não aparecia justificada; c) não havia razão para <add hand="CDD2010" place="supralinear">tu</add> sentires falta de confiança em ti própria; d) parecia chegada <hi rend="underlined">agora</hi> a<lb/> altura de reagires. Peço-te que releias o que escrevi e vejas se não é mesmo isto que lá está. Certo?<lb/><lb/> Quinto ponto: Abordei um outro conjunto de problemas a que não respondes directamente. É preciso reconhecer, no entanto,<lb/> que implicitamente és bastante clara e precisa. Sim, senhora, não esperava tanto! Certo?<lb/><lb/> No fundo o que importa é que não julgasses que pretendia criar-te ou agravar-te problemas, que tivesses a certeza<lb/> certa de que procurei apenas contribuir para a resolução deles, apesar das condições realmente pouco propícias. E isto não puzeste<lb/> tu em duvida; o resto é secundário. É ou não é mesmo assim?<lb/><lb/> Obrigado pelas minas-lápis (tantas!) e pelo afiador. Insisto em que não gastes dinheiro em comidas e mimos: a<lb/> questão concreta é que não o tens... até me posso engasgar com as coisas e nem me sabem bem.<lb/><lb/> Recebi ontem uma carta do <abbr>Dr</abbr> <name/>. Em P.S. diz-me textualmente e apenas "O Ministério <add hand="CDD2010" place="supralinear">Público</add> interpôs<lb/> recurso". Se te fosse possível, via vantagem em saberes exactamente qual a razão e qual o objectivo deste recurso, para o que seria<lb/> bom conhecer o texto do relatório <add hand="CDD2010" place="supralinear">em</add> que <add hand="CDD2010" place="supralinear">se</add> interpõe recurso. Peço-te que vejas <add hand="CDD2010" place="supralinear">em</add> <del hand="CDD2010">em</del> que te é possivel ajudares o <abbr>Dr</abbr> <name/><lb n="false"/> <name/>, etc. Eu vou escrever-lhe hoje mesmo, mas agradecendo sobretudo a sua carta.<lb/><lb/> Vou também escrever à nossa <name/>, a chamar-lhe mimalha e chorona e querida. <add hand="CDD2010" place="supralinear">- Afinal não tive tempo.</add> O postal mais lindo<lb/> dos que a <name/> me deu. Vou também escrever ao meu Pai: às vezes é preciso conhecê-lo: quanto mais se acarinha,<lb/> mais gosta de se fazer zangado.<lb/><lb/> Já sabes quando vem a tua irmã? Já toda a historinha que construiste ou faltam capítulos?<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Tenho que acabar aqui... Abraços a todos e à tua Mãe.<lb/> Beijo-te</seg></p>
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                <signed><name/></signed>
            </closer>     
            <ps><p>Ps - Quando é que te lembras de me mandar fotografias tuas, sobretudo as que<lb/> eu proprio te tirei sobretudo uma delas? (E a propósito: as máquinas...?)<lb/> <name/></p></ps>
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