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<!DOCTYPE TEI.2 PUBLIC "-//CTB//DTD Dalf 1.0 (based on TEI)//NL" "DALF.dtd">
<TEI.2>
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            <titleStmt><!-- escolha aleatória -->
                <title>1973. Carta de amizade de um exilado em Itália para uma amiga. De Florença para Lisboa. FLY1567</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia
                    PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
                <respStmt>
                    <resp n="project">
                        <name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters:
                            Years 1900-1974)</name>
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                        <name id="RM">Rita Marquilhas</name>
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                        <name id="LT">Leonor Tavares</name>
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                <respStmt>
                    <resp n="contextualization">
                        <name id="A-RG">Ángel Rodríguez Gallardo</name>
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                    <resp n="revision">
                        <name>Leonor Tavares</name>
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                </respStmt>
                <respStmt>
                    <resp n="supervision">
                        <name id="RVDB">Ron Van den Branden</name>
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            </titleStmt>
            <publicationStmt>
                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
                </address>
                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2012">2012</date>
                <availability status="restricted">
                    <p>Copyright 2012, CLUL</p>
                    <p>Carta parcialmente transcrita. O texto completo é de acesso restrito.</p>
                    <p>AVISO: De acordo com o disposto nas Leis da Protecção de Dados (Lei nº 67/98
                        de 26 de outubro) e do Património Arquivístico Protegido (Lei nº 16/93 de 23
                        de janeiro), o CLUL só fornece o texto integral de cartas privadas recentes
                        (que não tenham sido expressamente oferecidas pelos seus proprietários) aos
                        interessados que provem ir apenas utilizá-lo para efeitos de investigação
                        científica, e que, além disso, se comprometam a não o publicar. Por cartas
                        privadas "recentes" entende-se as cartas de autores vivos e as de autores
                        falecidos há menos de 50 anos; desconhecendo-se a data da morte do seu
                        autor, são também consideradas recentes as cartas escritas há menos de 75
                        anos (artigo 17º, nº 2 da Lei nº 16/93 de 23 de janeiro). Para obtenção de
                        textos completos, os interessados deverão dirigir o seu pedido para o
                        seguinte endereço electrónico</p>
                    <p>fly@clul.ul.pt</p>
                </availability>
            </publicationStmt>
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                <letDesc>
                    <letIdentifier>
                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution type="none">N.A.</institution>
                        <repository reg="AP">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>Fólios 1r-12v</idno>
                    </letIdentifier>
                    <letHeading>
                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2506" id="CDD2506">CDD2506</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2507">CDD2507</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Florença</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1973.12.19 <date value="1973"/>
                        </dateLet>
                    </letHeading>
                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
                        <support>
                            <p>12 folhas de papel de carta escritas no rosto, à exceção da última,
                                escrita de ambos os lados.</p>
                        </support>
                        <extent>
                            <dimensions>
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                        <layout>
                            <p>sem linhas em branco separando a fórmula de endereço do início do
                                texto.</p>
                        </layout>
                        <decoration>
                            <decoList>
                                <decoItem id="fig1">
                                    <decoDesc>
                                        <p>seta</p>
                                    </decoDesc>
                                </decoItem>
                            </decoList>
                        </decoration>
                        <condition>
                            <p/>
                        </condition>
                    </physDesc>
                    <envOcc occ="no"/>
                    <letContents>
                        <class n="type">notícias</class>
                        <class n="linguisticSource"/>
                        <class n="socioHistoricalSource">exílio</class>
                        <class n="sociologySource">família, educação, comunicação, condições
                            económicas, emprego,cultura</class>
                        <p>O autor conta como falou com os pais por telefone e lhes pediu o envio
                            dos pertences pessoais; escreve sobre os seus passeios e sobre a busca
                            de um curso universitário em Florença.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY1568</p>, <p>FLY1569</p>, <p>FLY1570</p>,
                                <p>FLY1571</p>, <p>FLY1572</p>, <p>FLY1573</p>, <p>FLY1574</p>,
                                <p>FLY1575</p>, <p>FLY1576</p>, <p>FLY1577</p>, <p>FLY1578</p>,
                                <p>FLY1579</p>, <p>FLY1580</p>, <p>FLY1581</p>, <p>FLY1582</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
                        <surrogates>
                            <p>
                            </p>
                        </surrogates>
                        <note n="context">
                            <p>exílio</p>
                        </note>
                    </additional>
                </letDesc>
            </sourceDesc>
        </fileDesc>
        <encodingDesc>
            <projectDesc>
                <p>Projecto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas
                    escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio.
                    Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra e suprimindo-se os sinais de mudança de
                    linha para facilitar operações de busca automática. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis 
                    foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, 
                    e as formas acrescentadas nos mesmos originais transcreveram-se na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, 
                    as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar pela letra [L] e as de outros
                    dados pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <profileDesc>
            <langUsage>
                <language n="PT"/>
            </langUsage>
        </profileDesc>
        <revisionDesc>
            <change>
                <date>julho de 2012</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Leonor Tavares</name>
                    </resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
            <change>
                <date>Outubro de 2013</date>
                <respStmt>
                    <resp>
                        <name id="RM_LT">Rita Marquilhas e Leonor Tavares</name>
                    </resp>
                </respStmt>
                <item>Revisão da leitura</item>
            </change>
        </revisionDesc>
    </teiHeader>
    <text id="FLY1567">
        <body>
            <pb n="1r"/>
            <opener>
                <address><addrLine>Firenze</addrLine></address>
                <dateline>19/12/73 - 11.10 h.</dateline>
                <note>5</note>
                <salute>Querida <name/></salute>
            </opener>
            <p> [...] <pb n="2r"/> [...] Das coisas mais importantes que<lb/> conclui desde
                que cheguei aqui é que<lb/> uma separação um tanto radical e<lb/> efectivamente
                longa duma pessoa em<lb/> relação ao seu meio, ao seu "mundo",<lb/> revela sempre
                quais são as pessoas<lb/> desse meio de que, aquela que parte,<lb/> ama, pelas quais
                se interessa e preocupa[...]<pb n="4r"/> [...] Como
                fizeste em relação às coisas<lb/> que eu pedi para tu separes, no<lb/> meu quarto?
                Penso que foi precisa-<lb/>mente na carta <abbr>N</abbr> 1 que te enviei<lb/> uma
                lista do que devia ser separado<lb/> e preparado para me ser enviado<lb/>
                <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> quando houver possibilidade[...]<pb n="5r"/> [...] A lista é a seguinte: (<abbr>q</abbr>
                me lembre)<lb/> xxx casaco de pele de antípole<lb/> xxx sapatos castanhos<lb/> xxx
                botins<lb/> xxx sapatos pretos<lb/> casaco de lã (Nazaré)<lb/> x calças pretas<lb/>
                camisa verde clara de manga curta<lb/> calças rosa velho<lb/> saco cama<lb/> bolsa
                preta <abbr>c</abbr> canetas<lb/> o que está assinalado faz-me uma<lb/> falta
                fundamental. [...]<pb n="6r"/> [...] Já agora, desculpa, mas<lb/> se não te importas
                diz-lhe que, se<lb/> puderem me mandem o mais depres-<lb/>sa possível o dinheiro que
                me devem<lb/> [...]- cambiado<lb/> em LIRAS, porque aqui é quase
                impos-<lb/>sível cambiar dinheiro português e<lb/> perde-se muito na troca. Esse
                dinheiro<lb/> está a fazer-me uma falta bastante<lb/> grande.<pb n="7r"/> [...] Já fui à Universidade
                <placeName/>. Surpreendeu-me um pouco.<lb/> Por um lado é um ambiente
                um<lb/> pouco fechado, selectivo, com um<lb/> equipamento didático estupendo<lb/> e
                um limite <add hand="CDD2506" place="supralinear">máximo</add> de inscrições <del
                    hand="CDD2506">na</del> (esta<lb/> escola funciona numa villa, um<lb/> palácio
                barroco lindo, um pouco<lb/> retirado do centro da cidade) por<lb/> outro lado os
                cursos que aí se fazem<lb/> são só de 1 ano. [...] <pb n="9r"/> [...] <lb/><lb/> Depois o David.<lb/><lb/> Não há palavras que
                descrevam.<lb/> Qualquer coisa de sobrenatural e<lb/> humano simultâneamente.<lb/>
                Entra-se na galeria da Academia de<lb/> Belas-Artes e está ao fundo. Durante<lb/> o
                caminho que é necessário percorrer,<lb/> dos lados estão os escravos<pb n="10r"/>
                incompletos, são musculos, carne<lb/> que se destacam dos blocos pesados<lb/> de
                marmore, como que querem sair<lb/> daquela massa bruta e tornar-se<lb/> pessoas; uma
                luta imensa entre<lb/> a pedra e a vida. Ao fundo, com<lb/> uma cúpula por cima que
                o ilumina<lb/> está o David. Olha-se de baixo, ele<lb/> está lá em cima do pedestal,
                enorme,<lb/> belo, majestoso, inacessível até; ao<lb/> mesmo tempo tem medo,
                des-<lb/>denha, está abandonado, só, mas<lb/> quere-o. Nunca uma escultura me<lb/>
                fez percepcionar tanta pureza, tanta<lb/> força, tanta sensualidade como esta.<lb/>
                Ao lado, no transepto da galeria<lb/> um pequenino busto de bronze<lb/> de Miguel
                Angelo. Pode-se ficar 1 hora<lb/> ou 1 dia inteiro a olhar, só olhar.<lb/> Também os
                tumulos da Sacristia<lb/> Nova da Capela dos Médicis.<lb/> O dia, a noite, a aurora,
                o crepusculo-<lb/>- 2 mulheres, 2 homens - correspon-<pb n="11r"/>dentemente: o
                medo, a dor, a desi-<lb/>lusão, a tristeza. É uma sala<lb/> pequena, de dimensões
                muito humanas.<lb/> Entra-se e parece mais pequeno <add hand="CDD2506"
                    place="supralinear">do</add> que<lb/> as fotografias mostram. Uma luz<lb/> muito
                coada, tudo na penumbra, é<lb/> um túmulo, um jazigo, dentro<lb/> estão estes quatro
                seres, meio deitados,<lb/> contorcidos ora analizados até ao<lb/> promenor ora
                sómente apontados<lb/> por um escopo. Um ar de silencio<lb/> de religiosidade, de
                eternidade.<lb/> O cantico lindo que vinha da missa<lb/> ao lado dava uma aparencia
                de intem-<lb/>poralidade, uma presença da vontade<lb/> do artista, uma perfeita
                funcionalidade<lb/> (imaterial) da obra concebida.<lb/><lb/> Sai-se e é toda a
                Florença que<lb/> existe desde sempre; até o mercado<lb/> de frutas, de verduras, de
                roupas que<lb/> está alí a 10 metros.<lb/><lb/> O turismo é a grande tragédia.<lb/>
                Pode dizer-se que os turistas não vêm<lb/> Florença, não a vivem; pretendem,<lb/>
                como se fosse possível, metê-la dentro<lb/> duma máquina fotográfica ou
                cine-<lb/>matográfica e mostra-la num<pb n="12r"/> serão de família que
                raiva!!!<lb/><lb/> Por hoje acabo. Entretanto fui<lb/> à Mensa Universitária
                (cantina) almoçar<lb/> comi pasta al sugo (massa <abbr>c</abbr> molho<lb/> de carne
                e queijo ralado), escalope<lb/> de porco panado <abbr>c</abbr> salada de alface<lb/>
                e uma pera (<abbr>c</abbr> casca). Tudo por<lb/> 400 liras (10$00) o <abbr>q</abbr>
                é aqui ao preço<lb/> da chuva.<lb/><lb/> Mais logo, farei o meu habitual<lb/>
                passeio ao Arno, à ponte Vecchio.<lb/> Que lindo que é o Arno!<lb/><lb/> As pessoas,
                a cidade vivem mais o rio<lb/> que aí em Lisboa. Penso que como<lb/> o tejo é um rio
                de grande estuário,<lb/> é inteiramente aproveitado para<lb/> navegação, sendo
                assim, as suas<lb/> margens estão transformadas em<lb/> cais. Aqui, não, o Arno é um
                rio<lb/> onde se pesca, ou se se passeia de<lb/> barco, a água que faz falta à<lb/>
                paisagem da cidade (não se pode tomar<lb/> banho - a poluição estraga a poesia
                toda!)<lb/> [...]</p><closer></closer>
            <ps>
                <p>PS <deco decoRef="fig1"/><pb n="12v"/> PS - Infinitamente agradecido<lb/> pelos
                    "Eugénios" de Andrade[...].</p>
            </ps>
        </body>
    </text>
</TEI.2>
