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<!DOCTYPE TEI.2 PUBLIC "-//CTB//DTD Dalf 1.0 (based on TEI)//NL" "DALF.dtd">
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                <title>1974. Carta de amizade de um exilado em Itália para uma amiga. De Florença para [Lisboa]. FLY1570</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project">
                        <name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters:
                            Years 1900-1974)</name>
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                        <name id="RM">Rita Marquilhas</name>
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                        <name id="LT">Leonor Tavares</name>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="A-RG">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
                <respStmt><resp n="revision"><name>Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <name id="TS">Tiago Sá</name>,
                    <name id="JPF">José Pedro Ferreira</name>,
                    <name id="AK">Ângela Kajita</name>
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                    <resp n="revision">Leonor Tavares<name/>
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                <respStmt>
                    <resp n="supervision">
                        <name id="RVDB">Ron Van den Branden</name>
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                </respStmt>
            </titleStmt>
            <publicationStmt>
                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
                <address>
                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
                </address>
                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2012">2012</date>
                <availability status="restricted">
                    <p>Copyright 2012, CLUL</p>
                    <p>Carta parcialmente transcrita. O texto completo é de acesso restrito.</p>
                    <p>AVISO: De acordo com o disposto nas Leis da Protecção de Dados (Lei nº 67/98 de 26 de outubro) e do 
                        Património Arquivístico Protegido (Lei nº 16/93 de 23 de janeiro), o CLUL só fornece o texto integral 
                        de cartas privadas recentes (que não tenham sido expressamente oferecidas pelos seus proprietários) aos 
                        interessados que provem ir apenas utilizá-lo para efeitos de investigação científica, e que, além disso, 
                        se comprometam a não o publicar. Por cartas privadas "recentes" entende-se as cartas de autores vivos e 
                        as de autores falecidos há menos de 50 anos; desconhecendo-se a data da morte do seu autor, são também 
                        consideradas recentes as cartas escritas há menos de 75 anos (artigo 17º, nº 2 da Lei nº 16/93 de 23 
                        de janeiro). Para obtenção de textos completos, os interessados deverão dirigir o seu pedido para o 
                        seguinte endereço electrónico</p> 
                    <p>fly@clul.ul.pt</p>
                </availability>
            </publicationStmt>
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                    <letIdentifier>
                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution type="none">N.A.</institution>
                        <repository reg="AP">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>Fólios 1r-5v</idno>
                    </letIdentifier>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2506" id="CDD2506">CDD2506</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2507">CDD2507</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Florença</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1974.02.19
                            <date value="1974"/>
                        </dateLet>
                    </letHeading>
                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
                        <support>
                            <p>cinco folhas de papel de carta escritas em ambos os lados .</p>
                        </support>
                        <extent>
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                        <layout>
                            <p>uma linha em branco separando a fórmula de endereço das restantes linhas.</p>
                        </layout>
                        <condition>
                            <p></p>
                        </condition>
                    </physDesc>
                    <envOcc occ="no"/>
                    <letContents>
                        <class n="type">notícias</class>
                        <class n="linguisticSource"/>
                        <class n="socioHistoricalSource">exílio</class>
                        <class n="sociologySource">cultura, emprego, intimidade, condições económicas, família</class>
                        <p>O autor escreve contando que deixou o grupo de estudo para poder começar a trabalhar; mostra-se frustrado com o acontecido.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY1567</p>, <p>FLY1568</p>, <p>FLY1569</p>, <p>FLY1571</p>, <p>FLY1572</p>, <p>FLY1573</p>, <p>FLY1574</p>, <p>FLY1575</p>, <p>FLY1576</p>, <p>FLY1577</p>, <p>FLY1578</p>, <p>FLY1579</p>, <p>FLY1580</p>, <p>FLY1581</p>, <p>FLY1582</p></note> 
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability status="restricted">
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
                        <surrogates>
                            <p>
                            </p>
                        </surrogates>
                        <note n="context">
                            <p>exílio</p>
                        </note>
                    </additional>
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        <encodingDesc>
            <projectDesc>
                <p>Projecto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas
                    escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio.
                    Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra e suprimindo-se os sinais de mudança de
                    linha para facilitar operações de busca automática. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis 
                    foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, 
                    e as formas acrescentadas nos mesmos originais transcreveram-se na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, 
                    as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar pela letra [L] e as de outros
                    dados pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <revisionDesc>
            <change>
                <date>julho de 2012</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Leonor Tavares</name>
                    </resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
            <change>
                <date>Outubro de 2013</date>
                <respStmt>
                    <resp>
                        <name id="RM_LT">Rita Marquilhas e Leonor Tavares</name>
                    </resp>
                </respStmt> 
                <item>Revisão da leitura</item>
            </change>
        </revisionDesc>
    </teiHeader>
    <text id="FLY1570">
        <body> 
            <pb n="1r"/>
            <opener>
                <address><addrLine>Firenze</addrLine></address>
                <dateline>19/2/74</dateline>
                <note>16</note>
                <salute>Querida <name/></salute>
            </opener>
            <p>
                Ontem foi um daqueles dias a que chamamos<lb/> "infelizes".<lb/><lb/> [...] Hoje, às 15 <abbr>h</abbr>, começo a trabalhar numa<lb/> "Pelleteria" (fabrica de artigos de pele, bolsas, <abbr>etc</abbr>). Durante<lb/> toda esta semana estarei "em prova" considerando<lb/> que é a <abbr>1a</abbr> vez que faço um trabalho seme-<lb/>lhante. Para a próxima semana se verá quanto<pb n="1v"/> ganharei.<lb/><lb/> [...]  <pb n="2r"/> [...] Telefonei no domingo para minha casa.<lb/> Disse ao meu pai para entrar em contacto<lb/> contigo para te dar o dinheiro que precisares<lb/> para <del hand="CDD2506">que</del> comprares o dicionário que te<pb n="2v"/> peço na carta anterior e também para<lb/> as fotografias.<lb/><lb/> [...] <pb n="3r"/> <hi rend="underlined">19 Fevereiro</hi><lb/> Acabei o outro bloco, de modo que<lb/> continuo a escrever neste.<lb/><lb/> Comecei esta tarde, efetivamente,<lb/> a trabalhar. Aprendi a cortar pele.<lb/> Como sabes, para o fazer bem tem<lb/> que se ter uma técnica. Foi isso<lb/> o que hoje aprendi. Penso que fui<lb/> bem sucedido porque não estraguei<lb/> nada durante 4 <abbr>h</abbr> e 1/2 de trabalho.<lb/> Ainda não sei quanto vou ganhar<lb/> mas penso que não menos de 1.000 liras<lb/> à hora o que dá 4.500 liras ao dia<lb/> (só me pergunto como me atrevo ainda<lb/> a fazer projectos (!!!) no fim de todas<lb/> as frustações que tenho sofrido nos<lb/> ultimos tempos...)<lb/><lb/> Claro que não é nada divertente<lb/> estar 4 <abbr>h</abbr> e meia a cortar peles e isso<lb/> frusta-me muito; no entanto foi<lb/> a única <gap reason="cancelled" extent="1 letter"/> coisa que encontrei que<lb/> me permita ganhar dinheiro<pb n="3v"/> sem me escravizar. A possibilidade<lb/> que tive de fazer criado de mesa<lb/> ocupava-me do meio dia às 3 e<lb/> das 7 às 10 da noite, sem ter fim de<lb/> semana (pelo contrário fui advertido<lb/> que se trabalha muito mais). Ora<lb/> isto reduzia-me completamente a<lb/> uma dependência incrível; tudo<lb/> quanto fizesse, ou não fizesse, vinha<lb/> em função do que o emprego me<lb/> permitisse. Depois, pensando bem,<lb/> as horas de intervalo (3 - 7) são<lb/> sempre horas mortas, que nunca<lb/> se podem utilizar em nada de<lb/> verdadeiramente produtivo.<lb/><lb/> Então, sendo assim e se o<lb/> meu futuro "ordenado" me compensar<lb/> devo ficar nesta pelleteria até<lb/> arranjar outra colocação melhor.<pb n="4r"/> De manhã continuo a fazer o curso<lb/> de língua; à noite sou livre,<lb/> mas esta liberdade é-me necessária<lb/> como o ar sem ela seria a<lb/> destruição completa.<lb/><lb/> [...]  O que mais me revolta, é<pb n="4v"/> constatar que <hi rend="underlined">REALMENTE</hi> uma pessoa<lb/> só <hi rend="underlined">SERVE</hi> se é um elemento produtivo<lb/> mecânico dentro duma estrutura<lb/> que limita profundamente esse<lb/> elemento na sua função creativa.<lb/><lb/> A aptidão de criar, de trabalhar<lb/> fora do ESQUEMA (onde patrão e<lb/> servo se movem sôfregos de ganhar)<lb/> não é considerada, não chega para<lb/> se ser independente <abbr>economica</abbr>.<lb/><lb/> [...]  ao fim e ao cabo é só isto:<lb/> - ou te integras no rebanho para<lb/> seres um carneiro igual aos outros<pb n="5r"/> ou, se não queres, vive da tua condição<lb/> de criador.<lb/><lb/> Claro que os casos com intervenção<lb/> do "terceiro elemento" são diferentes.<lb/> Por terceiro elemento considero aquele<lb/> que pode modificar a relação dos<lb/> <supplied resp="LT" reason="damaged">2</supplied> primeiros: o EU e o ambiente, a<lb/> sociedade.<lb/><lb/> A este momento fui chamado para<lb/> ir ver televisão. - Vinicius de<lb/> Morais - Reportagem de uma das suas<lb/> habituais visitas a Florença acompa<lb/>nhada de canções brasileiras e de<lb/> muito, muito wisky; confesso que<lb/> me pareceu duma superficialidade<lb/> confrangedora, mas é um facto<lb/> que o Brasil, a música brasileira<lb/> tem aqui uma grande dimensão,<lb/> muito mais que Portugal (Benfica<lb/> e Amália Rodrigues).<lb/><lb/> [...] Mas, <hi rend="underlined">REPITO</hi>, Florença é uma<lb/> cidade maravilhosa e com a<lb/> Primavera está a transformar-se<lb/> num verdadeiro sonho.<lb/><lb/> 
            </p>
            <closer>
                <salute>1 beijo muito grande</salute>
                <signed><name/></signed>
            </closer>
            <ps>
                <p><abbr>PS</abbr> - Insisto em lembrar-te que me<lb/> deves mandar tão depressa possível a<lb/> direcção do "<name/>".<lb/> <hi rend="underlined">Se não te importares</hi> de telefonares ao<lb/> <name/> (no caso de ser mais eficiente).<lb/> O telefone da casa dos pais é: <num/><lb/> ou então procura-o ou telefona <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> perguntando<lb/> por ele no Conservatório Nacional.</p>
            </ps>
        </body>
    </text>
</TEI.2>