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                <title>1957. Carta de amor entre noivos. Do Funchal para Lisboa. FLY1608</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name>Leonor Tavares</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2012">2012</date>
                <availability status="restricted">
                    <p>Copyright 2012, CLUL</p>
                    <p>Carta parcialmente transcrita. O texto completo é de acesso restrito.</p>
                    <p>AVISO: De acordo com o disposto nas Leis da Protecção de Dados (Lei nº 67/98 de 26 de outubro) e do 
                        Património Arquivístico Protegido (Lei nº 16/93 de 23 de janeiro), o CLUL só fornece o texto integral 
                        de cartas privadas recentes (que não tenham sido expressamente oferecidas pelos seus proprietários) aos 
                        interessados que provem ir apenas utilizá-lo para efeitos de investigação científica, e que, além disso, 
                        se comprometam a não o publicar. Por cartas privadas "recentes" entende-se as cartas de autores vivos e 
                        as de autores falecidos há menos de 50 anos; desconhecendo-se a data da morte do seu autor, são também 
                        consideradas recentes as cartas escritas há menos de 75 anos (artigo 17º, nº 2 da Lei nº 16/93 de 23 
                        de janeiro). Para obtenção de textos completos, os interessados deverão dirigir o seu pedido para o 
                        seguinte endereço electrónico</p> 
                        <p>fly@clul.ul.pt</p>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution type="none">N.A.</institution>
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                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY1608, Fólio [1]r-v</idno>
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                        <placeLet attested="yes">Funchal</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1957.01.24
                            <date value="1957"/>
                        </dateLet>
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                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
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                            <p>carta manuscrita em papel de carta sem linhas.</p>
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                        <layout>
                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <decoration> 
                            <decoList> 
                                <decoItem id="fig1"> 
                                    <decoDesc> 
                                        <p>chaveta</p>
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                                </decoItem> 
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                    <letContents>
                        <class n="type">expressão de amor</class>
                        <class n="linguisticSource"></class>
                        <class n="socioHistoricalSource">emigração</class>
                        <class n="sociologySource">intimidade, saúde, cultura</class>
                        <p>O autor, que se dirige para Moçambique, conta a sua viagem entre Lisboa e o Funchal a bordo do paquete Niassa. Além de se confessar saudoso e apaixonado, narra com pormenores a despedida no cais, o quotidiano a bordo, os interiores do barco, as refeições, o entretenimento e os episódios de enjoo. Animou-o um telegrama da noiva, recebido já a bordo. Também descreve a Madeira, que visitou durante a estadia do barco no Funchal.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY1609</p>, <p>FLY1610</p>, <p>FLY1611</p>, <p>FLY1612</p>, <p>FLY1613</p>, <p>FLY1614</p>, <p>FLY1615</p>, <p>FLY1616</p>, <p>FLY1617</p>, <p>FLY1618</p>, <p>FLY1619</p>, <p>FLY1620</p>, <p>FLY1621</p>, <p>FLY1622</p>, <p>FLY1623</p>, <p>FLY1624</p>, <p>FLY1625</p>, <p>FLY1626</p>, <p>FLY1627</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
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                            <p></p>
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                        <note n="context">
                            <p>emigração</p>
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        <encodingDesc><projectDesc>
            <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, 
                migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
        </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra e suprimindo-se os sinais de mudança de
                    linha para facilitar operações de busca automática. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis 
                    foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, 
                    e as formas acrescentadas nos mesmos originais transcreveram-se na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, 
                    as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar pela letra [L] e as de outros
                    dados pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p> 
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
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            <langUsage>
                <language n="PT"/>
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>setembro de 2012</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Leonor Tavares</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
            <change>
                <date>novembro de 2013</date>
                <respStmt>
                    <resp>
                        <name id="RM_LT">Rita Marquilhas e Leonor Tavares</name>
                    </resp>
                </respStmt> 
                <item>Revisão da leitura</item>
            </change>
        </revisionDesc>
    </teiHeader>
    <text id="FLY1608">
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            <pb n="[1]r"/>
            <opener>
                <date><abbr>Jan</abbr> 1957</date>
                <salute>Querida <name/></salute>
            </opener>
            <p>
                Encontro-me neste momento na <hi rend="underlined">Madeira</hi>. São 8 Horas<lb/> em ponto (em <abbr>Lxa</abbr> são nove). O Niassa ficou ao largo<lb/> e vim <abbr>pa</abbr> terra num gasolina. Escrevo-te numa esplanada<lb/> à porta dum café "Golden gate".<lb/><lb/> Que saudades que eu tenho.<lb/> [...] <lb/> Depois de o barco dar a volta ainda fui ao outro lado<lb/> <abbr>pa</abbr> dar o último adeus. Não sei se me viste. Eu já não<lb/> te reconhecia. Vi um lenço e uma blusa brancos julguei<lb/> <supplied resp="LT" reason="damaged">que</supplied> eras tu, levantava o braço a dar o derradeiro adeus.<lb/> Depois fui tomar o "lunch". Após este fui <abbr>pa</abbr> a sala de<lb/>  fumo que fica no mesmo andar do camarote. Aí<lb/> eu e o meu colega travámos os primeiros conhecimentos<lb/> com o comissário do barco e três rapazes que nos<lb/> convidaram <abbr>pa</abbr> o jogar "King". O meu colega jogou e<lb/> tratei de fazer a escrita. A partida foi interrompida<lb/> porque os três colegas foram jantar (<abbr>1o</abbr> turno). Fui até<lb/> ao camarote, deitei-me e por muito tempo fixei<lb/> os meus olhos na fotografia na MINHA <name/>.<lb/>  Por volta das 7 e 1/2 fui jantar e gostei. Na verdade,<lb/> é um ambiente selecto. A sala de jantar fica à<lb/> esquerda antes de se subir <abbr>pa</abbr> os camarotes. Findo<lb/> o jantar fui <abbr>pa</abbr> o camarote eram 8 e 1/2 porque<lb/> me sentia um pouco fatigado e só sai hoje (24)<lb/> de manhã.  Quer dizer, estive desde o dia 22 das<lb/> 20 e 30 até às 8 do dia 24 sempre no camarote e<lb/> quase sempre deitado. Na manhã do dia 23 levan-<lb/>tei-me <abbr>pa</abbr> ir à casa de banho, e em virtude da<lb/> grande vacilação fiquei mal disposto. Não consegui<lb/>  vomitar porque tinha o estômago vazio. O criado<lb/> trouxe-me umas torradas. À hora do almoço<lb/> um bife e fruta e depois ao jantar pescadinha<lb/> de "cauda nos lábios" e lombos de porco e fruta.<lb/> Os intervalos das refeições eram preenchidos<lb/> com "sonecas". De vez em quando olhava <abbr>pa</abbr><lb/> a minha <name/>. O meu colega já goza<lb/> comigo por ver fazer-me tantas vezes isto. Já sabe<lb/> que quando pego na carteira é <abbr>pa</abbr> te ver.<pb n="[1]v"/> Recebi o teu telegrama que me animou. Foi-me entregue<lb/> por volta das oito horas. Sei que o expediste às 10 e<lb/> tal e receberam-no às 4 da tarde. Em toda<lb/> a correspondência <abbr>pa</abbr> bordo deves nomear o camarote<lb/> [...] a fim   de facilitar a entrega da<lb/> mesma.<lb/><lb/> Hoje <add hand="CDD2543" place="supralinear">(24)</add> de manhã tomei um duche e preparei-me<lb/> <abbr>pa</abbr> visitar a Madeira. Estou à espera do meu<lb/> camarada <abbr>pa</abbr> me mostrar a Pérola do Atlântico.(<lb/> (é bastante bonita). Andavas tão preocupada <abbr>pa</abbr><lb/> que nevasse e assim eu teria ocasião de ver neve.<lb/> Cá na Madeira o cimo das montanhas estão<lb/> cobertos de neve. O tempo está um pouco nube-<lb/>lado, mas a temperatura é agradável.<lb/> [...]<lb/> O Niassa só deve partir às 4 horas da tarde. Logo<lb/> devo ir dar uma volta no automóvel do meu<lb/> colega e assim terei oportunidade visitar os lugares<lb/> mais aprazíveis desta encantadora ilha.<lb/> O que contam da ilha é verdade.<lb/> Meu amor, como tudo isto era muito melhor<lb/> se tu estivesses junto de mim. Ainda hei-de<lb/> ter essa oportunidade.<lb/><lb/> No barco pensei em escrever-te, mas não<lb/> consegui devido à oscilação. Muitas pessoas<lb/> enjoaram. O meu colega que está habituado<lb/> a esta viagem (êle é da Madeira) também enjoou.<lb/> Ele está convencido que eu não sei. Apetecia-me<lb/> ler mas também não consigo. Terei de permanecer<lb/> deitado na cama. Até à Madeira o mar<lb/> está mais agitado. Agora <abbr>pa</abbr> diante está<lb/> mais calmo e faço votos <abbr>pa</abbr> que a viagem corra<lb/> melhor. Depois no cabo ainda será pior.<lb/> [...] <lb/> Se me autorizas<lb/> dou-te um beijo de parabéns.<lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Cumprimentos às tuas amigas, ao <name/> e<lb/> ao <name/>.<lb/> Aceita todo amor</seg>   
            </p>           
            <closer>
                <salute>do sempre TEU</salute>
                <signed><name/></signed>
                <note>Funchal, 24/1/57</note>
                 </closer>
        </body>
    </text>
</TEI.2>

