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                <title>1957. Carta de amor entre noivos. De Lisboa para Moçambique. FLY1627</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
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                    <resp n="contextualization"><name>Leonor Tavares</name></resp>
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                <respStmt><resp n="revision"><name>Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2012">2012</date>
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                    <p>Copyright 2012, CLUL</p>
                    <p>Carta parcialmente transcrita. O texto completo é de acesso restrito.</p>
                    <p>AVISO: De acordo com o disposto nas Leis da Protecção de Dados (Lei nº 67/98 de 26 de outubro) e do 
                        Património Arquivístico Protegido (Lei nº 16/93 de 23 de janeiro), o CLUL só fornece o texto integral 
                        de cartas privadas recentes (que não tenham sido expressamente oferecidas pelos seus proprietários) aos 
                        interessados que provem ir apenas utilizá-lo para efeitos de investigação científica, e que, além disso, 
                        se comprometam a não o publicar. Por cartas privadas "recentes" entende-se as cartas de autores vivos e 
                        as de autores falecidos há menos de 50 anos; desconhecendo-se a data da morte do seu autor, são também 
                        consideradas recentes as cartas escritas há menos de 75 anos (artigo 17º, nº 2 da Lei nº 16/93 de 23 
                        de janeiro). Para obtenção de textos completos, os interessados deverão dirigir o seu pedido para o 
                        seguinte endereço electrónico</p> 
                        <p>fly@clul.ul.pt</p>
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                        <country>Portugal</country>
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                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY1627, Fólios [1]r e [2]r</idno>
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                    <physDesc>
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                            <p>carta manuscrita em papel de carta com linhas.</p>
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                        <layout>
                            <p>sem linhas em branco a separar o cabeçalho e o início do texto.</p>
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                        <condition>
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                        <class n="type">notícias</class>
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                        <class n="sociologySource">intimidade, educação, comunicação, cultura</class>
                        <p>A autora conta ao noivo, recém-chegado a Moçambique, as partidas que as colegas fazem entre si no lar de estudantes onde está alojada. Mostra-se muito entusiasmada com a visita a Portugal da Rainha de Inglaterra e do Duque de Edimburgo, narrando todos os detalhes do acontecimento. Faz ironia com uma das radionovelas da época. Ao longo de toda a carta, fala também dos estudos e da saudade que sente do destinatário. </p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY1608</p>, <p>FLY1609</p>, <p>FLY1610</p>, <p>FLY1611</p>, <p>FLY1612</p>, <p>FLY1613</p>, <p>FLY1614</p>, <p>FLY1615</p>, <p>FLY1616</p>, <p>FLY1617</p>, <p>FLY1618</p>, <p>FLY1619</p>, <p>FLY1620</p>, <p>FLY1621</p>, <p>FLY1622</p>, <p>FLY1623</p>, <p>FLY1624</p>, <p>FLY1625</p>, <p>FLY1626</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
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                        </adminInfo>
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                            <p></p>
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                        <note n="context">
                            <p>emigração</p>
                        </note>
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        <encodingDesc><projectDesc>
            <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, 
                migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
        </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra e suprimindo-se os sinais de mudança de
                    linha para facilitar operações de busca automática. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis 
                    foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, 
                    e as formas acrescentadas nos mesmos originais transcreveram-se na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, 
                    as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar pela letra [L] e as de outros
                    dados pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p> 
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
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                <language n="PT"/>
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>novembro de 2012</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Leonor Tavares</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
            <change>
                <date>abril de 2014</date>
                <respStmt>
                    <resp>
                        <name id="RM_LT">Rita Marquilhas e Leonor Tavares</name>
                    </resp>
                </respStmt> 
                <item>Revisão da leitura</item>
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        </revisionDesc>
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            <opener>
                <note><abbr>no</abbr> 11</note>
                <dateline>17/II/57</dateline>
                </opener>
            <p>
                Como era domingo hoje, a tua fotografia esteve todo o dia<lb/> cá de fora e então as minhas amigas resolveram pregar-<lb/>me uma partida. Agora, depois do jantar, quando<lb/> vim de baixo estranhei ver a moldura deitada de modo<lb/> a tapar a fotografia. Fui levantá-la e o quê? Em<lb/> vez da fotografia do meu <name/> vejo lá a fotografia<lb/> de um lindo cãozinho, e o meu <name/>? Nada, desa-<lb/>pareceu. Toda a gente diz que não sabe, mas eu<lb/> já lhes disse que àmanhã não vai ninguém ver<lb/> a Raínha enquanto a fotografia não aparecer. Já no outro<lb/> dia ma esconderam com a moldura e eu fechei-as<lb/> no quarto e não as deixava ir para a faculdade sem<lb/> ela aparecer. E apareceu mesmo. Mas agora o caso<lb/> está pior porque tenho impressão que não foram<lb/> só as do meu quarto. Foi de associação com a <name/><lb/> e a <name/>. Agora foram todas para o quarto delas e<lb/>não me querem dar o meu <name/>. Aqui fiz uma in-<lb/>terrupção para ir co<del hand="CDD2542">z</del>ser à <name/> e à <name/> os lençóis da<lb/> cama. Agora vou estudar porque tenho  bastante.<lb/> Hoje não estudei muito. Agora, por cá, não se faz outra<lb/> coisa senão falar <hi rend="underlined">na Rainha e no Duque</hi>. Como deves<lb/> saber pelos jornais Sua Magestade chegou ontem, 16, <del hand="CDD2542">à</del>ao Mon-<lb/>tijo, de avião. O duque esperava-a e seguiram para Setú-<lb/>bal, para o iate "Britannia" onde estiveram hoje e ontem.<lb/> Àmanhã desembarcarão às 11 <abbr>h</abbr> no Terreiro do Paço. De-<lb/>pois contar-te-ei o que vir, porque lá tenciono ir com<lb/>o meu irmão. A cidade está toda muito enfeitada<lb/> e quase todos os edifícios e janelas estão engalanados.<lb/> É pena é o tempo estar feio. Tem chovido bastante. De<lb/> vez em quando há umas resteazinhas de sol, mas<lb/> depois chove. Há imensa gente. Na baixa quase não se<lb/> pode andar, segundo me disseram porque ainda não fui ver<lb/> nada. Àmanhã é que tenciono ir. Vê lá, hoje, mais outro do-<lb/>mingo passado a estudar e não saí. Vou mas é estudar agora.<lb/> Devo ir tomar café para não me dar sono. Se conseguir estar a estudar até tarde ainda<lb/> te escrevo mais um bocadinho.<pb n="[2]r"/> 18/II/57 - Faltam 5 <abbr>m</abbr> para a meia-noite. Estou sentada na cama a<lb/> escrever-te. Tenho estado a estudar Psicologia Geral e ainda vou continuar<lb/> depois de escrever-te. A tua fotografia já apareceu. Tinham-ma guardado<lb/>dentro de uns papeis na minha mesa de cabeceira. Como pensava que<lb/> tinham sido a <name/> e a <name/>, fui ao quarto delas e trouxe a foto<lb/>grafia do <name/> e escondia-a. Como o <name/> já apareceu fiz o desenho de<lb/> um porco (= <name/>), pus na moldura da <name/> e fui pôr no quarto<lb/> delas. Acharam muita graça, mas afinal tinham sido a <name/>, a <name/> e<lb/> as minhas vizinhas do quarto em frente (<name/> e <name/>) que te tinham<lb/> substituído por um cãozinho de orelhas muito grandes, pendidas e<lb/> encaracoladas. <name/>, foi hoje o dia da chegada oficial da <hi rend="underlined">Rainha de Ingla-</hi><lb/>terra. Certamente leste os pormenores no jornal, mas no caso de isso não<lb/> ter acontecido vou resumir-te em poucas palavras o que aconteceu. A Rainha<lb/> estava no "Britânia" com o Duque de Edimburgo na foz do Sado. Hoje de<lb/>manhã, (6 e tal) uma flotilha portuguesa foi buscá-lo juntamente com<lb/> outros barcos ingleses! Passaram a barra e chegaram ao Terreiro do Paço<lb/> às 11 <abbr>h</abbr>. Aqui numa tribuna de cristal e dourados com cadeiras decoradas<lb/> à Luis XIV esperavam-nos o chefe do Estado, a esposa, presidente do Conselho,<lb/> da Assembleia Nacional, Câmara Corporativa, <abbr>Min</abbr> Paulo Cunha e altas in-<lb/>dividualidades. A"Sagres" salvou com 21 tiros e a Raínha desembarcou.<lb/> Subiu à tribuna e assistiu a um desfile de tropas (6.000 - escola do exécito e<lb/> meninos da Luz) e estabeleceu-se depois o cortejo em que a Rainha ia com<lb/> o nosso chefe do estado num coche (do Museu dos Coches) com paredes de vidro<lb/> para que o povo a pudesse ver bem.O cortejo veio do terreiro de Paço, pela Rua<lb/> Augusta, Rossio, Restauradores, <abbr>Av</abbr> da Liberdade, Parque Eduardo VII (ao cimo do<lb/> qual estava uma grande tribuna donde ela observou a cidade). Seguiram<lb/> depois em automóveis para o palácio de Queluz (foi ouvir o romance do<lb/> «tide»). Depois de um almoço íntimo a Rainha e o Duque foram visi-<lb/>tar o chefe do Estado ao palácio de Belém. Finda a visita regressaram a<lb/>Queluz onde receberam as crianças inglesas. À noite houve um jantar dado<lb/> pelo presidente no Palácio da Ajuda (130 convidados), ao qual se seguiu uma<lb/> recepção (600 convidados).E aqui está o que a Rainha fez hoje. O tempo<lb/> esteve estupendo. Fazia um sol radioso na altura do cortejo.<lb/>[...]<lb/> Cá, continuo na<lb/> monotonia de sempre e passo melhor o tempo. Conto ir no dia 28 a<lb/> um sarau do Pavilhão dos Desportos (oferecido pelo Orfeou de Coimbra<lb/> à Acção Missionária) e possivelmente a algum cinema <lb/> [...]<lb/> Fiquei muito satisfeita por teres encontrado pessoas<lb/> conhecidas e amigas em Lourenço Marques. É sempre um prazer encontrarmos<lb/> amigos longe de casa e em terra desconhecida. Vou acabar já de escrever<lb/> porque a <name/> e a <name/> estão a mexer-se muito e isto é sinal que<lb/> não dormem por causa da luz. Vou apagá-la já. ... <lb/>[...]<lb/> 19/II/57 - Isto é uma loucura, cá em Lisboa, por causa da Rainha.<lb/> É um movimento enorme por todas as ruas. São agora 22 <abbr>h</abbr> e 20 e acabei<lb/> de a ver há uns dez minutos. Ia linda ao lado do seu marido a<lb/> caminho da Opera no São Carlos. O duque também ia muito bonito e<lb/> fizemos-lhe tantos adeus que se virou completamente no carro e nos<lb/> acenou. O carro vinha muito devagarinho e iluminado por dentro. Vie-<lb/>ram do jantar na Embaixada Inglesa e passaram aqui ao Rato. Agora<lb/> vou estudar um pouco porque ainda os queremos ir ver à saída do São<lb/>Carlos. <lb/>[...]<lb/> Vou<lb/> ver de estudo para ir ver a rainha mais uma vez.<lb/><lb/> 20/II - <lb/>[...]<lb/>Hoje não tive carta tua, como esperava. As moças de cá <add hand="CDD2542" place="supralinear">do lar</add> que são de Moçambique<lb/> tiveram notícias e eu não. Ainda poderá ser àmanhã, <del hand="CDD2542">p</del> mas certamente só<lb/> terei domingo ou <abbr>2a</abbr>.Ontem à noite ainda fui ver a Rainha. Tornei a vê-<lb/>los à saida do São Carlos. Esta noite há fogo de artifício no Tejo. A Rainha oferece<lb/>um jantar ao nosso Presidente a bordo do iate "Britannia" e daí vêem os fogos.<lb/> Eu não vou ver e tenho muita pena, mas não pode ser porque tenho exame às 10 <abbr>h</abbr><lb/> àmanhã e não me posso deitar tarde. <lb/>[...]
            </p>
            <closer>
                <salute>da tua</salute>
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