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            <titleStmt><!-- escolha aleatória -->
                <title>1971. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. De Peniche para [Lisboa]. FLY2024</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                <respStmt><resp n="revision"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY2024, Fólios [1]r-v</idno>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
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                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1971.04.06
                            <date value="1971"/>
                        </dateLet>
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                        <type>carta</type>
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                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche.</p>
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                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
                            <p></p>
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                        <class n="type">ordem</class>
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                        <class n="socioHistoricalSource">prisão</class>
                        <class n="sociologySource">família, saúde, educação, cultura</class>
                        <p>O autor mostra-se aborrecido com a destinatária por ela lhe ter escondido notícias sobre a saúde das filhas. Ordena-lhe que passe a deixá-lo envolver-se mais como pai. Parte para um ensaio em que menciona Eça e Simone de Beauvoir. Em termos de leituras, comenta também Pessoa e Guimarães Rosa. Depois de comentar a vontade que a mulher tem de voltar aos estudos, termina com um pedido sobre as encomendas que quer receber na prisão.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
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                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2024_1.JPG"/></bibl>
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                        </surrogates>
                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
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                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <profileDesc>      
            <langUsage>                 
                <language n="PT"/>             
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>julho de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Mariana Gomes</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
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            <opener>
                <address><addrLine>Peniche,</addrLine></address> 
                <date>6. Abril. 1971</date> 
                <salute><name/>:</salute></opener>
            <p>Como está a <name/>? Continua bem disposta e sem febre? <hi rend="underlined">Quais foram os resultados das análises à urina e à zaragatoa que deviam ter sido feitas,<lb/> sem falta, na <abbr>2a</abbr> feira?</hi> É claro que continuo apreensivo e à espera de todas as notícias, boas ou más. Calculas as saudades que tenho das miudas (cal-<lb n="false"/>culas <name/>), e da <name/> em especial por estar doente, mas não a tragas cá sem estar curada ou, pelo menos, <hi rend="underlined">sem explícita autorização do médico</hi>.<lb/><lb/> Diz à <name/>, todos os dias, que eu lhe dou milhões de beijos. A <name/> escreveu-me um postal: que está a passar as férias da Pascoa no<lb/> Porto com a <name/>, que está boa e brinca muito. Escrevi-lhe tambem. Minhas queridas, minhas queridas!<lb/><lb/> É realmente importante que não embarques em parvoeiras cabotinas de que dar más notícias é sadismo. (O que se entenderá, afinal, por<lb/> sadismo?). Pode-se sempre - a todos os níveis e em todas as circunstâncias - invocar os mais diversos pretextos para distorcer ou desfigurar a realidade,<lb/> para, deste ou daquele modo, justificar a insensibilidade ou o egoísmo ou a cobardia ou a mentira ou a deslealdade. Pode-se até chamar-lhes outros<lb/> nomes, mas isso não altera nada. Essa, a desculpa <note n="contraction">d</note>um "paternalismo bem-intencionado", usa-se muito, em variadas coisas: nem original é! Com<lb/> que base pode alguém arrogar-se o direito "superior" de impedir que eu conheça exactamente o que se passa com as minhas filhas, no momento exacto<lb/> em que se passa? A não ser um "deusinho" enfatuado a exibir frases bonitas. Estar preso não é o mesmo que ser menor ou irresponsável ou in-<lb n="false"/>capaz ou impotente ou, mais ou menos, morto, nem parvo. Pelo contrário! Eu, por mim, já sou muito crescido para começar agora (porque seria agora<lb/> que começava) a ter esse medozinho de viver a vida, seja qual fôr. Oh! Tartufos vestidos de misericórdia! Não há dúvida, <name/>, quotidianamente,<lb/> nas mais pequenas coisas (em nós também) se verifica que a consciência alienada e alienante dos homens transmuta em grandes palavras os baixos<lb/> jogos: o desprezo pelos outros disfarça-se de beneficiência caridosa. E fica-se contente porque se é Bom. Oh! Conselheiros Acácios como tendes<lb/> florido neste país de romances côr-de-rosa e de tão parca auto-lucidez!<lb/><lb/> <note n="contraction">D</note>uma ou doutra forma, eu no pleno gozo das minhas faculdades mentais e da minha vontade, pela <num/> vez preso, maior de quarenta<lb/> anos, com uma biografia suficientemente, ou até excessivamente, <name/>, inteiramente lúcido, declaro terminantemente: a) todos, mas todos os problemas<lb/> e incidentes ou acidentes ou seja o que for, respeitantes às minhas filhas, e em geral, à minha vida, devem-me ser comunicadas com a maior brevidade, sem<lb/> qualquer hesitação; b) fazer ou defender o contrário disto, é explorar, aproveitar e beneficiar do facto de eu estar preso: tal atitude não é, diga-<lb n="false"/>mos assim, nem bonita nem nobre; c) ninguem pode, porque ninguém deve, tentar pôr em causa a validade desta decisão que só a mim me cabe.<lb/><lb/> Se quiseres, assino e reconhece-se em notário. Importa, e não pouco, que estas coisas fiquem perfeita e definitivamente claras entre<lb/> nós, sem margens para perplexidades tuas: não quero que te "esgotes" em dilemas tão tolos. Toda esta tirada, mesmo irónica, pode parecer irri-<lb n="false"/>tada. É-o, mas não muito. Lamento sim ter de concluir que não consegui até hoje dar-te um conhecimento de mim que te dispensasse de<lb/> consultas "amplas" sobre matéria tão pessoal, tão séria, tão óbvia, tão insusceptível de conversinhas amenas. <foreign>Mea culpa</foreign>!<lb/><lb/> Digo "<foreign>mea culpa</foreign>" a sério. As pessoas conhecem-se mal umas às outras. Com frequência, conhecem de nós muito bem certas facetas, às<lb/> vezes secundárias. De repente descobrem um outro conjunto de aspectos e ficam surpreendidas, umas vezes porque são ou parecem contraditórios,<lb/> outras porque se lhes afiguram irreconciliáveis, outras ainda porque abrem a porta <note n="contraction">d</note>uma personalidade insuspeitada. Nem sempre conseguem<pb n="[1]v"/> abarcar numa síntese o que irrompe fora do esquemazinho; o pior é que desistam, ficando no superficial ou, agarrados a um angulozinho estreito, arre-<lb n="false"/>dem os outros como inoportunos ou miríficos. O mal (aqui começa a "<foreign>mea culpa</foreign>") é desprezarmos o facto, consentirmo-lo sem luta. É isto para te<lb/> dizer que me conheces mal? É, sim. Mas é também para te "exigir" um esforço para quebrares ideias feitas, fáceis, simples, pobres. Falsas? Não: uni-<lb n="false"/>laterais, quase diria infantis. E para reconhecer, em parte, que to permiti, quanto mais não fosse por omissão.<lb/><lb/> Tudo isto, aliás, sejamos francos!, esconde mal a outra face da moeda: o sentimento (de decepção? de frustração? de impaciência? de incompreensão?)<lb/> com que verifico sempre a tua aparente incapacidade (fuga? pose teatral? insensibilidade? desprezo? cobardia?) a conversar comigo (cavaquear, digamos) sobre<lb/> alguns problemas que te equaciono. Às vezes, dir-se-ia (cruzes!) vacuidde. (Só a mim é que isto sucede!). O pior é que não é - eu sei-o. É preciso, <name/>,<lb/> libertares-te <note n="contraction">d</note> uma tal reacção provinciana e infantil. É tempo, também nestas coisas, de assumires a maioridade que é a tua. Não tens, afinal, a atitude<lb/> franca, espontânea, de acordo com a personalidade global que vens revelando na coragem e no acerto com que resolves os problemas da tua vida: o emprego,<lb/> a casa, as filhas, etc, etc. Nem mesmo está de acordo com essa sinceridade de que tanto te ufanas... - a não ser que tenhas na manga qualquer dessas<lb/> boas desculpas acacianas atrás referidas! Temos que conversar mais quando cá vieres. Pede à tua Irmã que te aconselhe, porque, embora tu sejas <del hand="CDD2010">,</del><lb/> pouco influenciável, és receptiva ao que te dizem, e ela te ajudará a ver claro e justo. É importante ver claro e justo.<lb/><lb/> Nem me disseste sobre que era a tese da tua Irmã. Estou interessado em saber em que bolandas se vai meter: e às vezes, sabe-se lá!, talvez<lb/> a possa "ajudar". É tema de interesse? Tenho pensado no teu projecto de estudos, embora receie que não passe de "mania": tu não és muito persisten-<lb n="false"/>te, manda a verdade que se diga. Não te deixes esmagar pelas dificuldades que serão reais e muitas: bases, hábitos de estudo, saude, tempo (quando se<lb/> quer arranja-se realmente, não é?), etc. Mas valerá a pena encarares a hipótese com cuidado. Românicas? E porque não Historicas? (A propósito: não<lb/> vás em lérias de que tens tido "muita sorte" no emprego: o que é relevante é o teu esforço, o teu trabalho, a tua capacidade de adaptação)<lb/><lb/> Recomendo de novo a leitura desse livrinho "<quote>Uma mente serena</quote>", da <abbr>S</abbr> Beauvoir. A ti e à <name/>. Coloca uma situação - a morte - em termos tão<lb/> frontais, tão despidos de efabulação, tão fotográficos, que se pressente um esforço para se libertar do choque provocado pela morte da mãe, para a racio-<lb n="false"/>nalizar, sem escapatórias, sem compensações alienantes. E, no entanto, não esmaga, não deprime, abre uma visão serena. É uma centena de páginas<lb/> excepcionais. Vou-te mandar o Pessoa e um ou dois outros livros (guarda-mos com o outro que em tempos te mandei), para poder receber estes dois de Gui-<lb n="false"/>marães Rosa. Estou muito interessado e não só eu. Até me perguntavam onde é que a tua Irmã o conseguiu comprar, porque quiseram fazê-lo<lb/> e não conseguiram: vê se sabes. E tu que tens lido? Que tens visto? Que tens feito?<lb/><lb/> O emprego como vai? O curso de estenografia? A tua saude? Arranja tempo e escreve, abre-te com à vontade!<lb/><lb/> Tens que começar a pensar na ida, no próximo ano, das miudas para o tal colégio em que falaste há tempos. Com o teu futuro horário de tra-<lb n="false"/>balho, a saude da tua Mãe, etc, etc temos que repensar com cuidado tudo isto. <hi rend="underlined">Inclusivé encarar outras soluções</hi>. Vai pensando e formando ideias.<lb/><lb/> Se calhar ainda nos vemos antes de receberes esta carta. Hoje veio nos jornais a confirmação do feriado de <abbr>5a</abbr> e <abbr>2a</abbr> e tu referiste a intenção<lb/> de cá vir. Ou, de qualquer modo, quero-me convencer que virás. Mas se não nos virmos: Boa Pascoa para todos vós!<lb/><lb/> Pouco espaço fica para falar de mim. Ontem e hoje, chuva e frio. Saude razoável. Em suma: cá estou.<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Abraços à tua Mãe e à <name/>.</seg> Como se chama a bebé da <name/>?</p>
            <closer><salute>Beijo-te</salute> 
                <signed><name/></signed></closer>
            <ps><p>P.S. - Peço-te: não gastes dinheiro em charcuterias. Se temes (ridiculo!) nada trazer, traz coisas feitas leves ou preferivelmente: café (o de outro dia era muito bom),<lb/> queijo, açucar, fruta. Isto não quer dizer menor agradecimento pelo que trouxeste. - JÁ RECEBESTE O CASACO?<lb/> <name/><pb n="[1]r"/> <hi rend="underlined">OS DESENHOS QUE TINHAS PARA MIM DAS MIÚDAS?</hi><lb/> PS: lembro-te que meu <name/> faz anos em 9 de Abril, sexta feira.<lb/> Lembro-te o pagamento do livro à <name/> (é aborrecido se te esqueceste outra vez)<lb/> Peço-te que, se puderes, me tragas a minha cigarreira de prata.<lb/> Adeus<lb/> <name/></p></ps>
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