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            <titleStmt><!-- escolha aleatória -->
                <title>1973. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY2025</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                <respStmt><resp n="revision"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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            </publicationStmt>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY2025, Fólios [1]r-v</idno>
                    </letIdentifier>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
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                        <placeLet attested="yes">Caxias</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1973.05.07
                            <date value="1973"/>
                        </dateLet>
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                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
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                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces.</p>
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                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
                            <p></p>
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                    <envOcc occ="no"/>
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                        <class n="type">instruções</class>
                        <class n="linguisticSource"></class>
                        <class n="socioHistoricalSource">prisão</class>
                        <class n="sociologySource">família</class> 
                        <p>O autor tenta resolver, da prisão, um problema familiar criado pela logística das visitas das suas filhas. No final, agradece um Fernando Pessoa que recebeu de presente.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
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                        </adminInfo>
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                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2025_1.JPG"/></bibl>
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                        </surrogates>
                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
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                <language n="PT"/>             
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>agosto de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Mariana Gomes</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
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    <text id="FLY2025">
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            <pb n="[1]r"/>
            <opener>
                <address><addrLine>Caxias,</addrLine></address> 
                <date>7. Maio. 1973</date> 
                <salute><name/>:</salute></opener>
            <p><seg type="formulaicText" n="harangue">Saude para todos vós!</seg><lb/><lb/> A <name/> contou-me a tua reacção no sábado; estava, de certo modo, ferida por tu teres levado a <name/>. Eu disse-lhe clara-<lb n="false"/>mente que teria procedido como tu procedeste, que tinhas tido razão e que não se justificava a susceptibilidade da <name/>. Pedi-lhe<lb/> mesmo para te telefonar hoje, <abbr>2a</abbr> feira, a dizer-te o que eu pensava e a esclarecer contigo as coisas, para não ficarem de pé<lb/> mal-entendidos entre vós. Em suma: a <name/> viera, disse-lhe, passar o fim de semana com a <name/> e era à <name/> que cabia<lb/> tomar, sem esforço nem espirito de "obrigação", conta da miudinha; que se a <name/> não podia fazê-lo então não deveria ter ido<lb/> buscar a <name/>; que não era a <name/> que "escolhia" com quem ficava ou onde ia: a <name/> ficava e ia com a <name/> e a <name/><lb/> deveria planear o fim de semana de acordo com isso, não como uma obrigação - em tal caso não tem interesse nenhum -, mas<lb/> como uma coisa "gostosa". Se tu (bem ou mal) admitiste que a <name/> estava a "causar problemas" então muito natural-<lb n="false"/>mente fizeste o que eu faria: levaste-a. A <name/> não pôde deixar de compreender e acabar por concordar. Simplesmente insistia<lb/> - e é verdade! - que a <name/> não causava problemas, que adora a <name/>, que apenas julgou não dever contrariar a <name/> que<lb/> queria ir ao casamento, etc. Creio que a <name/> estava a ser franca e creio-o até porque a <name/> estava triste e sentida por<lb/> a <name/> não ter ficado com ela: que tu não tinhas compreendido o seu objectivo e o que ela sente pela <name/>. Na minha opinião<lb/> deves ter em conta o que a <name/> diz com indiscutível, quanto a mim, sinceridade.<lb/><lb/> É claro que eu parto do princípio que o problema de onde e quando te entregar a <name/>, no domingo, foi um<lb/> pormenor sem importancia, embora tivesse surgido com relevância aparente... Porque quanto a isso - foi o que vi com a <name/><lb/> ontem - a solução é simples: a <name/> vai buscar a <name/> onde e quando tu disseres e vai-te levar onde e quando te convier.<lb/><lb/> Eu sei que tu levantaste a questão da <name/> não vir, no domingo, à visita. Há aí dois aspectos distintos que explico.<lb/> Em primeiro lugar, a vinda e depois não vinda da <name/> que "atrapalhou" tudo. Ora eu tinha que ver em pormenor e com<lb/> cuidado vários assuntos com a <name/>, ligados à sua vida escolar, à sua saude, a problemas ligados com provavel vinda da <name/>,<lb/> transferências cambiais, etc, etc - <hi rend="underlined">inadiáveis</hi>. Estava a contar com a <name/> e, portanto, com a tua vinda à visita no domingo:<lb/> o que possibilitava eu ter visita com a <name/> das 13 às 15 e convosco (tu, <name/>, <name/>) das 15 às 17. Embora meu Pai falasse<lb/> só na "possível" vinda da <name/>, fui surpreendido pela sua não vinda, mas não podia pedir-te para cá vires, de novo, ontem<lb/> e também não podia adiar a visita a sós com a <name/>: compreende-o, se fazes favor. Em segundo lugar, não me pareceu<lb/> "decisivo" que a <name/> viesse cá no domingo; ao querer que a <name/> passe o fim de semana com a <name/>, o meu objectivo central<lb/> é que a <name/> e a <name/> se estimem e se dêem como irmãs, brinquem juntas, etc: pela <name/> que gostará de andar no "pagode" e de<lb/> ser acarinhada também pela <name/>; pela <name/> (excessivamente só em lisboa) que expandirá a sua ternura real pela miudinha; e também<pb n="[1]v"/> pelo descanso que te possibilita. <hi rend="underlined">Só secundariamente</hi>, é meu objectivo que a <name/> me traga a <name/>. Secundariamente porquê? Porque tu<lb/> tens cá trazido bastantes vezes a <name/> e eu não quereria, de modo algum, que o deixasses de fazer. Então seria preferível<lb/> que a <name/> não fosse com a <name/> e que apenas continuasse a vir cá contigo, etc - por muitas razões sobre que, aliás, já conver-<lb n="false"/>sámos. <hi rend="underlined">Em suma, a <name/> passar um fim de semana com a <name/> não pretende de modo nenhum - nem poderia sequer - substituir<lb/> as tuas vindas cá com a <name/>.</hi> É certo que, em condições normais, a <name/> teria vindo com a <name/>, no sabado e no domingo,<lb/> à visita e só as razões que te expliquei já o impediram.<lb/><lb/> Compreendo bem que tu deves estar "irritada" com estes azares todos nas vindas cá: domingo anterior, estava eu com o<lb/> <abbr>dr</abbr> <name/>; este sábado, a <name/> não veio (eu sublinhei que meu Pai disse apenas "possível"). É claro que não posso<lb/> fazer nada e quero acreditar que tu o vês com nitidez e sem veres nos factos senão o que os factos são: coincidências aborre-<lb n="false"/>cidas, muito aborrecidas <hi rend="underlined">também para mim</hi> sobretudo por ti, mas que não pude impedir que acontecessem. Quero dizer-te<lb/> com muita sinceridade que me preocupa bastante que possas pensar <note n="contraction">d</note> outro modo: tu, às vezes, deixas-te ir atrás <note n="contraction">d</note> uma imagi-<lb n="false"/>nação que sempre me inquieta... A sério, creio que compreendes que tambem eu fiquei aborrecido e também eu fiquei<lb/> irritado e que também eu não gostei nada, mas nada que cá tivesses vindo em vão: por muitas razões e também porque<lb/> gostava de ter conversado contigo. (Não sei se <add hand="CDD2010" place="supralinear">já</add> te <add hand="CDD2010" place="supralinear"><del hand="CDD2010">te</del></add> disse que a consulta do <abbr>Dr</abbr> <name/> estava marcada para dia <num/> (o que<lb/> me forçou a não comemorar, como tanto e tanto queria, com a <name/> os seus anos que são nesse dia) e que só no dia <num/> à tarde fui<lb/> prevenido que, afazeres profissionais súbitos, o tinham obrigado a adiar a sua vinda para o dia seguinte, domingo... Como vês são<lb/> umas coisas atrás das outras a correr à desfeição e independentes da minha vontade!)<lb/><lb/> Já com o problema da vinda da <name/> eu penso que a tua vinda podia ter sido evitada, etc - mas não por mim. Por isso,<lb/> escrevo hoje à minha irmã - e pedi sábado que a <name/> o transmitisse a meu Pai - pondo claramente a questão e insistindo. Em resumo: a) por<lb/> mim nunca é inconveniente, muito pelo contrário, a vinda da <name/> ver-me; b) não é preciso sequer prevenir-me; c) em vez de me escreverem a<lb/> mim, <del hand="CDD2010">que</del> devem escrever-te a ti - ou telegrafar - dizendo <name/> vai visita dia tal, etc; d) no caso de, à ultima hora, não poder vir é<lb/> a ti que devem, escrevendo ou telegrafando, prevenir-te. Insisto que escrevam (para <abbr>R</abbr> <placeName/>, <num/> - <num/>, etc) porque tefonando podem<lb/> não te encontrar, etc. Escrevendo tu, em principio, recebes a correspondência: se não receberes... o problema é teu, é contigo, etc; mas<lb/> o essencial é que não me façam de mim intermediário em coisas tão simples, estando eu preso, logo cheio de limitações, etc. que me<lb/> impossibilitam de te prevenir de que a <name/> vem ou que já não vem, etc. Estou certo que a <name/> passará a fazer como lhe<lb/> digo, isto é, a escrever-te prevenindo-te a ti directamente de vindas ou não vindas. Julgo que tu estarás de acordo e vês bem<lb/> porque escrevo neste sentido e com força à<del hand="CDD2010">s</del> minha irmã. Certo?<lb/><lb/> Por fim - mas não é nada pouco importante para mim - dizer-te que me tenho deliciado, autenticamente deliciado, com o <abbr>F</abbr> Pessoa.<lb/> Aliás sei que tu sabes quanto. Agradeço-te (-vos?) muito e muito, um pouco incomodado por calcular que foi caro... Mas contente porque<lb/> me é uma "coisa" preciosa. Aliás, a Antologia que a <name/> me ofereceu tambem me maravilha até porque tem montes de coisas que eu<lb/> nunca tinha lido - não vinham na edição que eu conhecia.<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Abraços para todos vós, em especial para a <name/> e muito em especial para ti</seg></p>
            <closer><signed><name/></signed></closer>
            <ps><p>P.S - Peço-te o favor de me mandares dizer a <hi rend="underlined">idade</hi> do <name/> e do <name/>. E ainda o seguinte:<lb/> se a <name/> vê qualquer iconveniente em que eu tenha uma (ou mais) visitas com o <name/>, respeitando<lb/> os seus estudos, etc, etc. Gostava de o conhecer. Peço-te que digas à <name/> que eu gostei muito<lb/> de a ver.<lb/> <name/></p></ps>
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