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            <titleStmt><!-- escolha aleatória -->
                <title>1971. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY2026</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                <respStmt><resp n="revision"><name id="LT">Leonor Tavares</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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            </publicationStmt>
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                    <letIdentifier>
                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY2026, Fólios [1]r-v</idno>
                    </letIdentifier>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2011" id="CDD2011">CDD2011</addressee>
                        <respStmt><resp n="annotator" id="annotator"/></respStmt>
                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1971.01.22
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                        </dateLet>
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                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
                        <support>
                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche.</p>
                        </support>
                        <extent>
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                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <decoration>
                            <decoList>
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                                    <decoDesc>
                                        <p>desenhos feitos a lápis</p>
                                    </decoDesc>
                                </decoItem>
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                        </decoration>
                        <condition>
                            <p></p>
                        </condition>
                    </physDesc>
                    <envOcc occ="no"/>
                    <letContents>
                        <class n="type">pedido</class>
                        <class n="linguisticSource"></class>
                        <class n="socioHistoricalSource">prisão</class>
                        <class n="sociologySource">família, saúde, emprego, cultura</class>
                        <p>O autor minimiza angústias que a destinatária lhe terá confessado por carta. Faz-lhe uma série de pedidos sobre o cuidado a ter com as filhas e sobre a relação com pessoas de família. Recomenda um livro de Eça e termina mencionando encomendas que gostaria de receber na prisão.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
                        <surrogates>
                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2026_1.JPG"/></bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2026_2.JPG"/></bibl>
                            </p>
                        </surrogates>
                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
                        <note n="otherContext"><p>Uma da filhas do autor da carta terá feito os desenhos a lápis dispostos no manuscrito.</p></note>
                    </additional>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <profileDesc>      
            <langUsage>                 
                <language n="PT"/>             
            </langUsage>
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>agosto de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Mariana Gomes</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
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    </teiHeader>
    <text id="FLY2026">
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            <pb n="[1]r"/>
            <opener>
                <address><addrLine>Peniche,</addrLine></address> 
                <date>22. Janeiro. 71</date> 
                <salute>Querida <name/>:</salute></opener>
            <p><add hand="annotator" place="margin-left"><deco decoRef="fig1"/></add><lb/> Sento-me à mesa, releio a tua carta e vou-me sorrindo. Dir-se-ia que não vives, transitas! Casa-emprego, emprego-casa,<lb/> <foreign>and so on</foreign>... E ainda te esqueceste da escola. Não é bem assim, minha cara. Para além disto e nisto existes: existes em casa,<lb/> existes no emprego, existes na escola, existes nos transportes, existes, em suma, nisso a que chamas "restante rotina". Eu sei que não é<lb/> nada natural que descubras a pólvora ou topes com qualquer acontecimento raro e refinado, deslumbrante, valendo por si mesmo<lb/> uma alta obra narrativa, definitiva e gloriosa nas letras. Mas também a mim não me interessa muito a descoberta da pólvo-<lb n="false"/>ra ou uns novos Lusíadas. Interessas-me tu (se mo permites!), a tua vida, essa rotina, esses pequenos convívios, esses pequenos<lb/> acidentes que passam desapercebidos e dos quais - como toda a gente - vives, sentes, pensas. O mesmo te poderia dizer desses<lb/> assombros que são as nossas meninas, a quem muito amo, de quem gostaria de conhecer (e de viver) as tais gra-<lb n="false"/>cinhas, o seu espanto deste mundo, as birras, sei lá. Eu sei que não são gracinhas nem birras dignas da<lb/> futura história desta década de 70, neste século XX. São coisas provavelmente vulgaríssimas de vulgares miúdas<lb/> Assucede que essas miúdas são minhas filhas e, por isso, únicas, espantosas, tudo quanto quiseres. (A que se acrescenta<lb/> uma saudade muito profunda delas; não bem saudade, mais um vazio doloroso.) Queria escrever-lhes, mas não tenho<lb/> em quê: percebes?<lb/><lb/> Mas eu vou-me conformando com essa tua "alergia" epistolar. O que é natural é que, como<lb/> doença que é, seja contagiosa...<lb/><lb/> Mas já não me conformo com a ausência de elementos sobre a <name/> e a <name/>. Porque tinha a <name/><lb/> <supplied resp="MG" reason="hidden">febre</supplied> e dores de cabeça no domingo? Quais as consequências da varicela na <name/>? Que diz o médico? Insisto, <name/>,<lb/> leva-me as miúdas ao médico. Sê razoável e sensata! Eu já não digo todos os meses, mas uma vez de quando em<lb/> quando: serem vistas por um pediatra, fazerem uma revisão geral à máquina só para a gente sossegar: não achas?<lb/> Tu propria quantas vezes, penso eu, não hás-de sentir a necessidade desse sossego de consciência...<lb/><lb/> Não te escrevi na <abbr>4a</abbr> feira; também não escrevi à <name/> - a quem tencionava, um pouco em teu<lb/> nome - dizer-lhe que aparecesse, que desse noticias, que não se esquecesse das sobrinhas. Escrevo-lhes a todos,<lb/> inclusivé a meu Pai. Meu Pai queixa-se de falta de noticias tuas, das miudas... Que falta de tempo tu tens! («<quote>o<lb/> problema do tempo ressurge</quote>», dizes tu). Eu conheci um sujeito que tinha redigido uns postais "tipo", género formu-<lb n="false"/>lário, a enviar. É o que tu precisas. A sério, o que te custa escrever, de quando em quando, um postal para<lb/> <deco decoRef="fig1"/><pb n="[1]v"/> o Porto, perguntando se estão bons e desejando saude, dizendo da tua saude e das miudas, mandando cumprimentos e saudades?<lb/> Que tempo te levará, ó estenógrafa, escrever à <name/>: "<name/>, que é feito de ti? Tenho telefonado para o emprego, mas<lb/> não te encontro. É-me dificil passar por tua casa, mas porque não telefonas nem apareces? Diz-me como está agora<lb/> a tua saude. Se te puder ajudar em alguma coisa, diz. Nós bem. Abraços das primas e da tia". Bem<lb/> espremido, com muito vagar e alguns cigarros pelo meio, digamos: 10 minutos! E a resposta à <name/>?<lb/><lb/> Não percebo esse teu emprego: por um lado reclamam e conseguem o subsídio patronal para as refeições, mas não o dão<lb/> aos próprios empregados!!! Tens que ver isso. Como tens que ver essa coisa do fim do tempo experimental: agora tens mesmo que entrar<lb/> no quadro, integrada num acordo ou num contrato colectivo, com regalias, tempos de promoção etc. Vê se me abres esses<lb/> olhos. Teres o curso de estenografia ou não é secundário. Não vás em conversa fiada, até porque os directores podem<lb/> mudar. Tem isto em conta.<lb/> Bem, não me posso esquecer de te dizer que quero ver a prenda que te dou pelos teus anos: não comeces às voltinhas.<lb/> E a propósito, admitindo que possas perder a agenda, repito as caracteristicas da esferográfica que te pedi: Montblanc, 4<lb/> cores, com quatro cargas sobresselentes (uma de cada cor); atenção: não sei se há douradas, mas <hi rend="underlined">não</hi> quero dourada <del hand="CDD2010">p</del>.<lb/> E, não esqueças, que as cargas sejam mesmo Montblanc, senão não prestam.<lb/> Lá te resolveste a trazer-me comestíveis vários. Não te posso dizer que não prestavam ou que não gostei porque<lb/> seria falso. Mas posso repetir que não vale a pena, que não quero, que não quero, que não quero... (supõe um disco partido).<lb/> Os <foreign>pickles</foreign>, sim. Quando sentires essa vergonha (que ridiculo) de não trazer nada, traz-me, além de ti e das<lb/> miudas, Nescafé: afinal continua a não haver outro processo de tomar cafe!<lb/> Quando cá vieres, mando-te entregar uns livros: guarda que são <supplied resp="MG" reason="illegible">nossos</supplied>.<lb/><lb/> Tenho andado a ler um livro encantador: "<quote>Uma campanha alegre</quote>", do Eça, <del hand="CDD2010">Eo</del>Eu só conhecia meia duzia<lb/> de trechos. São artigos de jornal, muito curtos, verdadeiramente espantosos de ironia, de acerto critico, de<lb/> contundência. Aconselho-tos vivamente, até porque se torna possível lê-lo aos pedaços, não exige continuidade de<lb/> leitura, precisamente porque são artigos independentes e muito curtos. Na biblioteca do sindicato deve haver.<lb/><lb/> Chega agora a tua Mana. Chega? Dá-lhe um abraço forte por mim, enquanto eu não lho<lb/> puder dar. Teremos que ver depois porque eu estou convencido que será possivel vê-la numa visita<lb/> mesmo antes de nós casarmos. Nem podia ser te outro modo.<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Abraça-me a tua Mãe, com os meus votos de saude.<lb/><lb/> Beija-me e acarinha-me com todo o amor as nossas filhas.<lb/><lb/> Beijo-te tanto quanto <unclear>aprontamente</unclear></seg></p>
            <closer>
                <salute>Teu</salute>
                <signed><name/></signed></closer>
            <ps><p>P.S: Espero que tenhas enviado o requerimento à Presidencia do Conselho como combinamos. É muito<lb/> importante. Falaremos no dia 31. Penso que deverás requerer quinzenalmente até obteres uma resposta qualquer<lb/> que ela seja. Agora vou mesmo até ao fim <add hand="CDD2010" place="supralinear">e muito a sério.</add>. Aliás também a meu Pai que o faça.<lb/> <name/></p></ps>
        </body>
    </text>
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