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            <titleStmt><!-- escolha aleatória -->
                <title>1971. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY2027</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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            </publicationStmt>
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                    <letIdentifier>
                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY2027, Fólios [1]r-v</idno>
                    </letIdentifier>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2011" id="CDD2011">CDD2011</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1971.05.25
                            <date value="1971"/>
                        </dateLet>
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                        <type>carta</type>
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                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche; há uma mancha de água que atravessa da quarta à oitava linha de texto.</p>
                        </support>
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                        <layout>
                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
                            <p></p>
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                    <envOcc occ="no"/>
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                        <class n="type">pedido</class>
                        <class n="linguisticSource"/>
                        <class n="socioHistoricalSource"/>
                        <class n="sociologySource">família, saúde, condições económicas, cultura</class>
                        <p>O autor, depois de mencionar uma carta biográfica que escreveu mas não mandou, pede à mulher que deixe uma das filhas, eventualmente as duas, irem passar as férias de verão com a família paterna. Comenta a difícil relação da mulher com a família por afinidade e dá-lhe conselhos sobre a conduta que julga ser mais apropriada. Menciona, no final, livros de Guimarães Rosa que retém mas ainda não leu.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleccção</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
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                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2027_1.JPG"/></bibl>
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                        </surrogates>
                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <profileDesc>      
            <langUsage>                 
                <language n="PT"/>             
            </langUsage>
        </profileDesc>
        <revisionDesc>
            <change>
                <date>agosto de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Mariana Gomes</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
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    <text id="FLY2027">
        <body>
            <pb n="[1]r"/>
            <opener><address><addrLine>Peniche</addrLine></address>, <date>25. Maio. 1971</date> 
                <salute><name/>:</salute></opener>
            <p>Esta é uma segunda carta. A primeira tenho-a para ali. Surpreendi-me a falar-te desse Outono de 1963, <note n="contraction">d</note> uma casa vazia e fechada<lb/> onde me vejo a escrever em letra miudinha, etc, etc. <supplied resp="MG" reason="damage">Já</supplied> não sei bem como - e não gosto de reler-me - encontrei-me a descrever-te as pri-<lb n="false"/>meiras horas da manhã deste dia 25 de Maio, mas em 1969; de como as coisas se foram reflectindo na minha cabeça, com uma lucidez,<lb/> uma calma e também uma coragem de que no próprio momento se vai tendo consciência e espanta; de como as coisas se sucederam; leve-<lb n="false"/>mente teatrais, às vezes sarcásticas, às vezes violentas, um pouco ridículas como todas estas coisas são, sempre muito tensas, até que - na posi-<lb n="false"/>ção mais incómoda, com espanto geral de todos os comparsas, no auge da tragédia (<abbr>1o</abbr> acto) - adormeci profundamente como um justo.<lb/> Depois tombara na indesculpável patetice de te contar um pouco <supplied resp="MG" reason="damage">destes</supplied> 730 dias... Reli-me. Ouvi-te a falar-me de <supplied resp="MG" reason="damage">retórica</supplied> dos<lb/> disfarces, da autenticidade. <supplied resp="MG" reason="cancelled">Finquei</supplied> o olhar neste espaço fechado que me cerca e fui concluindo que era forçoso dar-te razão,<lb/> que nada daquilo te poderia interessar senão muito literariamente (coisa que não sou) e que se impunha para nós ambos escrever-te<lb/> uma outra carta. É esta.<lb/><lb/> Escrevo hoje à <name/> e à <name/>. Dou-lhes conta do que entre nós ficou combinado: a ida da <name/> passar as férias grandes<lb/> com eles e a permanência posterior, se nenhuma reacção da miudinha o desaconselhasse; ter-se-ia em conta que pelo próprio facto de<lb/> serem férias poderiam não surgir logo as reacções, mas só depois. Podes estar segura, <name/>, que lhes coloquei abertamente os teus receios,<lb/> as tuas preocupações: mais, que os fiz meus. Podes confiar, <name/>, na isenção, na lealdade, no escrúpulo, na responsabili-<lb n="false"/>dade muito pesada e tambem na inesgotável gratidão para contigo.<lb/><lb/> Peço à <name/> que não se preocupe agora com os outros problemas que lhe colocaste. Ela precisa agora de repouso, de<lb/> serenidade, <note n="contraction">d</note> um certo egoísmo até. Tambem eu não quereria que o <name/> se metesse a cumprir um "fado" que não lhe pertence.<lb/> Ir-se-á vendo o que é possível e aguentando.<lb/><lb/> Não sei como encaras a hipotese da nossa <name/> ir também passar - todas ou parte ou o que tu entendesses - das fé-<lb n="false"/>rias grandes à <name/>. (Repara: não sei se será possivel, não falei ainda a ninguém, embora toque no assunto à <name/>). Faria bem<lb/> à <name/>, daria algum descanso à tua Mãe e a ti própria, tanto mais que virão o <name/> e o <name/>. Pensa nisto sem preconceitos,<lb/> à vontade, e diz-me com "autenticidade" se estarias de acordo ou não. Eu trataria depois, ou não, da ida.<lb/><lb/> O meu Pai disse-me que tencionava ir, no início de Junho, a Lisboa, ver a <name/>, ver as nossas filhas e, provavelmente,<lb/> falar contigo. Talvez sobretudo isto. Procurarei poupar-te e evitá-lo, mas não sei. É-me impossível - como sabes - estar ao vosso<lb/> lado para te ajudar e para o ajudar também. Sê-lhe muito franca e "autêntica", embora te peça que não esqueças os seus<lb/> 78 anos; mas é um homem cheio de experiência humana a quem, ainda que com tacto, deves falar claro, muito claro. Farei o<lb/> que puder para que ele próprio te auxilie, te apoie, te compreenda. Vê lá se, entretanto, consegues receber os tónicos e a<pb n="[1]v"/> carta que te escreveu (aliás com dinheiro para as miudas); eu insisti muito nos tónicos, ele próprio foi procurar a <name/> para que tos levasse,<lb/> etc, etc. Sei como ficaria chocado se ainda os não tivesses em teu poder. Julgo que será facil estar com a <name/> e resolver<lb/> os problemas que há.<lb/><lb/> <hi rend="underlined">A análise da minha <name/>?</hi> E os dentes da <name/>: agora como vais resolver isso? Levaste-lhes as bolachas ou<lb/> comeste-as todas? Fala-me das miudas, conta-me o que houver, tudo. Não te é difícil; o difícil, julgo eu, será saberes que<lb/> estou aqui, as semanas a passar e eu sem notícas das minhas catrainhas. Eu ia mandar-lhes uns postais, mas já não posso hoje;<lb/> mando no sábado: lê-lhos, por favor, sem cortes...<lb/><lb/> Tenho meditado não pouco na hipótese - posta por ti com sensatas reservas e cautela - de estadia cá, durante as férias, em meados<lb/> de Junho. Hesitei - e ainda temo; tu compreenderás que <add hand="CDD2010" place="supralinear">tambem eu</add> não gosto de confusões - dizer-te que me agradaria muito: exactamente porque me<lb/> permitiria um convívio regular, quase diário, durante algum tempo com as nossas filhas, o que há dois longos anos não acontece e que,<lb/> como dizê-lo?, não sabemos se, nos anos mais próximos, voltará a possibilitar-se. Tu decidirás. Que, no entanto, <hi rend="underlined">não sejam obstáculo quais-<lb n="false"/>quer considerações económicas</hi>. Estou certo de poder garantir-te toda a contribuição material necessária - o que é perfeitamente legitimo e justi-<lb n="false"/>ficado, dado que seria eu e as nossas filhas os principais beneficiados. Diz-me o que resolveres com algum tempo.<lb/><lb/> Tenho aqui os livros do Guimarães Rosa, mas nem sequer ainda os pude receber todos. Faz-te diferença, a ti ou à tua irmã?<lb/> Se fôr preciso, diz-mo que eu mando-tos mesmo que pelo correio.<lb/><lb/> Duvidaste aqui, a certa altura, do desinteresse da minha posição quando vieste para Lisboa - o que nem permitiu mostrar-te<lb/> que sempre estivera consciente de várias opções previsíveis por ela facilitadas, mas que se sobrepuzera a tudo a solidariedade e o respeito<lb/> para contigo. Insinuaste depois que eu não estaria hoje a compreender ou até a aperceber-me da ajuda que também agora necessitas. Não<lb/> quero fazer literatura, nem quero mesmo afirmar muito mais do que então te respondi. Não sei, não sei mesmo, o que querias dizer. Não sou<lb/> advinho, nem estou em situação muito própícia para me dar conta das coisas, para isto e para aquilo. E tu não facilitas muito -<lb/> - não é verdade? De qualquer modo: não tens nenhuma, mas mesmo nenhuma, razão. Admito que não esteja a aperceber-me disto ou<lb/> daquilo, e, só nesses termos e medida, admito menor compreensão, ou, mais exactamente, desconhecimento, de que não posso<lb/> nem devo culpar-me. Porque a disposição e a capacidade e a deliberação, e também a sensibilidade, de compreensão e de<lb/> ajuda são com rigor os mesmos. E que fique claro - e tu sabe-lo: enormemente grandes. Sê justa!<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">Beija-me muito e com muitas saudades a <name/> e a <name/>. Diz-lhes que eu lhes chamo nomes muito carinhosos<lb/> e lhes dou - nesta distância toda - muito amor, muita ternura e muito mimo. Diz à <name/> que me escreva.<lb/><lb/> Muitos abraços e muitos beijos e carinhosos para ambas <del hand="CDD2010">,</del> e para ti</seg></p>
            <closer>
                <signed><name/></signed></closer>
            <ps><p>PS. - Não te "aflijas" com a carta de 1963 que "indevidamente" retens... Não tem nada a ver com os 30 anos. Eu escrevera outras - a ti tam-<lb n="false"/>bém - e tenciono voltar a escrever mais. Depois conto-te qual é a "técnica"...<lb/> <name/></p></ps>
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