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            <titleStmt><!-- escolha aleatória -->
                <title>1969. Carta familiar entre tio e sobrinha. Caxias. FLY2069</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                <respStmt><resp n="contextualization"><name id="AR-G">Ángel Rodríguez Gallardo</name></resp></respStmt>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY2069, Fólios [1]r-v</idno>
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                        <dateLet attested="yes">1969.12.02
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                        </dateLet>
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                        <type>carta</type>
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                            <p>duas folhas de papel de carta pautado de 30 linhas escritas em todas as faces; carimbo dos Serviços de Verificação da Cadeia de Caxias.</p>
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                            <p>uma linha em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
                            <p>há um rasgão no rosto do segundo fólio que impede a leitura de algumas palavras.</p>
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                        <class n="type">instruções</class>
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                        <class n="sociologySource">família, saúde, emprego, educação, migração</class>
                        <p>O autor, em carta à sobrinha, tenta influenciar a mulher a lidar melhor com a situação difícil em que está, com o marido preso, uma rutura no horizonte, as filhas a cargo, falta de dinheiro e uma saúde precária. As relações tensas entre a mulher e a sua família por afinidade também lhe parecem problemáticas. Aí, o autor tenta mostrar-se conciliador, mas tomando sempre o partido da mulher. Preocupa-o também a hipótese de ela emigrar para África, levando-lhe as filhas para longe.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p>, <p>FLY2600</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
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                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleção.</p>
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                        </adminInfo>
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                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2069_1.JPG"/></bibl>
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                        </surrogates>
                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
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            <change>
                <date>dezembro de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Mariana Gomes</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
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            <pb n="[1]r"/>
            <opener><address><addrLine>Cadeia Caxias,</addrLine></address> <date>2. Dezembro, 1969</date> 
                <salute>Querida <name/>:</salute></opener>
            <p>Vejo-te envolvida nisto tudo. Não sei se será uma solução optima, mas não encontro outra e vais aprendendo... Con-<lb n="false"/>tigo sei que podemos contar, mas peço-te que não sacrifiques em demasia os teus afazeres - profissionais, sentimenais e outros que tais.<lb/><lb/> Conversamos já na visita. Pretendo agora recapitular algumas coisas, visando definir em concreto a minha posição. Peço-te<lb/> o favor de dares a ler esta carta à <name/> (e de a leres também). Escrevo hoje à tua mãe sobre tudo isto também.<lb/><lb/> 1. Não se me afigura acertada a "teoria" de que há que não influenciar. Em <abbr>1o</abbr> lugar, todos nós nos influenciamos,<lb/> mesmo com o silêncio, mesmo com a tentativa de não intervir; em <abbr>2o</abbr> lugar, deixamos necessariamente o campo aberto a outras influências e<lb/> sugestões. O que julgo correcto é não forçar ou impor soluções, não empurrar; mas ajudar o próprio a determinar-se dentro de limites adequa-<lb n="false"/>dos e levianamente certos.<lb/><lb/> 2. Há seis meses que não falo com a <name/>, não conheço nem vivo inteiramente os seus conflitos e anseios. Ausente, por<lb/> um lado, não-informada, <supplied resp="MG" reason="cancelled">por</supplied> outro. <supplied resp="RM" reason="illegible">Esforçando-me</supplied> por perceber nas entrelinhas, mas necessariamente com uma grande margem de erro.<lb/><lb/> 3. O que parece essencial é que a <name/> não deixe criar em si uma ideia de beco sem saída, de conflitos insanáveis<lb/> em termos normais, de circuito-fechado. Repito-lhe que pode contar comigo, com a minha compreensão, com o meu apoio. Procuro, em cada<lb/> instante, penetrar nas suas hesitações e preplexidades, atingir as suas ângustias. Baralho-me, por vezes, no muito que desconheço, mas não tanto<lb/> que não permaneça a seu lado. Doi-me que se sinta isolada, incompreendida, estranha, perdida. Não há qualquer razão para isso. É forçoso fincar<lb/> os pés na ideia de que é possivel encontrar solução para os problemas, para o seu próprio viver. É forçoso rejeitar, <note n="conctraction">d</note> uma vez para sempre, o medo<lb/> de tropeçar nas coisas, o medo de se bater pelo que quer e entende, o medo de não ser capaz. Ajudada, como os outros o são; acompanhada,<lb/> como os outros o são - como os outros também, com dificuldades identicas, os mesmos sucessos e os mesmos êxitos, conseguirá romper, impor-se,<lb/> moldar a vida à sua medida.<lb/><lb/> 4. O que seria altamente mau era que na cabeça da <name/> se criasse a ideia de que a única solução está na ida para<lb/> Africa ou na sua demissão de viver. Por um lado, abrir-se-ia uma situação extremamente conflituosa entre nós, que me seria completamente im-<lb n="false"/>possível compreender e aceitar depois do que dissemos e nos garantimos. Por outro lado, os problemas não seriam resolvidos, mas apenas transpostos<lb/> para outro lugar, muito provavelmente em condições e circunstâncias mais difíceis, tornando-se-lhe quase impossível voltar atrás.<lb/><lb/> 5. Em tudo isto me surge a tremenda importância de trocarmos opiniões. Não é possível fazê-lo directamente, mas é-o, mesmo<lb/> se limitadamente, através de ti. O espaço principal deve dirigir-se nesse sentido, para mantermos, em quaisquer circunstâncias e através de tudo, aquela<lb/> fraternidade sem máscara de que nos orgulhamos. Nenhuma tese poderá ser tão falsa, e mesmo tão dolorosa, como admitir que é necessário poupar-se,<lb/> suavizar as coisas, etc. Pois não serão os <del hand="CDD2010">mei</del><add hand="CDD2010" place="supralinear">meus</add> fundamentais problemas a ausência de vida, de conhecimento, de presença, etc, etc? É uma das<lb/> minhas mais caras crenças a de que nos saberemos manter sem meias-verdades, cara a cara, muito rudemente francos.<lb/><lb/> 6. Nenhum <del hand="CDD2010">cof</del>conflito é soluvel fugindo-lhe, torneando-o, adiando-o. A fuga, etc não significa senão <del hand="CDD2010">,</del> que, <note n="contraction">d</note> uma<lb/> forma ou <note n="contraction">d</note> outra, somos impotentes para os resolver, que não lhe vemos, de facto, solução. Vejo e sinto, é-me quase palpável, a rectidão<lb/> de contradições em que se debate, as dúvidas de sentimentos e de aspirações, os falsos orgulhos, as "realissimas peneiras", etc, etc. Em tais<lb/> condições, a possibilidade ser "empurrada" ou "atirada nesta ou naquela direcção é enorme, em todos os campos. O caminho é definir<lb/> firmemente soluções correctas e indiscutivelmente válidas, ponto por ponto, problema a problema, fincando os pés e a vontade e a coragem<lb/> no terreno que vai sendo conquistado. Reagir, não se justificar, não se perder tambem em auto-desculpas, em auto-piedadezinha.<lb/><lb/> 7. Mas certos problemas são indissoluvelmente <note n="contraction">d</note> um conjunto de pessoas, embora em diferentes graus. Quere dizer,<lb/> pedem, quando não exigem, soluções comuns, uns choques inúteis, uns dramas. Isso não significa renúncia ou demissão, mas apenas<pb n="[1]v"/> o reconhecimento que soluções válidas têm de ter em conta diferentes interesses e sentimentos, em diferentes níveis.<lb/><lb/> Por isto mesmo, discordo que não tenha havido conversa franca com meus Pais, com <name/>, etc. Posso compreender, mas nem<lb/> por isso discordo menos. E continuo a bater-me porque o faça. Imediatamente, tal conversa teria talvez levantado discussões e atritos, mas também<lb/> haveria coisas que não teriam surgido, partes que se deixavam em pé, etc; e, a longo <del hand="CDD2010">,</del> prazo, estar-se-ia a caminhar para encontrar so-<lb n="false"/>luções de raiz. Doi-me muito - mesmo muito - que, para além de todas as questiúnculas, não se tenha tido em conta as possíveis re-<lb n="false"/>percussões na saude de minha Mãe; também me magoa que varias coisas me tenham sido silenciadas. E não percebo que não se<lb/> tenha apelado para a minha ajuda, para a minha participação em problemas que afinal são meus.<lb/><lb/> <del hand="CDD2010">7</del>8. A <name/> necessita de tratar da saude. Achei-a ainda mais magra. A <name/> tem problemas cardíacos sérios; a <name/><lb/> tem problemas intestinais sérios; a <name/> tem problemas nervosos sérios. Estes problemas são solúveis e vale a pena resolvê-los. Mais: resolvê-<lb n="false"/>-los é uma base importantíssima para resolver todos os outros, para reganhar forças físicas, vencer a apatia, etc, etc. <supplied resp="MG" reason="illegible">Vai-se</supplied>, muitas vezes,<lb/> na tese de que "não estamos doentes, mas somos assim"; esta ideia é completamente falsa e não resiste a uma análise superficial.<lb/> A propria convicção de que "apenas somos assim" é frequentemente já o fruto da doença. Ora não há dificuldade em tratar-se,<lb/> em arranjar médicos, etc, etc. Nada pode justificar que não encare de frente e com energia esta questão. Urge fazê-lo.<lb/><lb/> 9. Ante a <name/> coloca-se como questão central o definir-se com acerto, olhando o conjunto dos sentimentos e pessoas<lb/> em jogo, mas olhando também para si-propria, com sinceridade. Que não se deixe arrastar por falsas piedadezinhas, mas tambem que<lb/> não embarque na auto-comiseração...<lb/><lb/> No sentido de a ajudar e para que me ajude a ver claro, a compreendê-la, a apoiá-la, a ajudá-la, eis as ques-<lb n="false"/>tões que considero principais:<lb/><lb/> A - <hi rend="underlined">ONDE VIVER</hi>? Não vejo mais que 3 possibilidades: Porto, Lisboa, Africa. <hi rend="underlined">No Porto</hi> conhece as vantagens<lb/> e os inconvenientes: há que definir com segurança uma posição e bater-se por ela. Saliento uma coisa: se concluir que não deve lá viver,<lb/> então é preferível não voltar. So <add hand="CDD2010" place="supralinear">se</add> <supplied resp="LT" reason="illegible">iriam</supplied> criar novas situações tensas, novos choques, etc, cada vez mais intensas, etc, muito provavelmente <supplied resp="MG" reason="illegible">azedas</supplied><lb/> questiunculas torná-las insanáveis, etc. <hi rend="underlined">Em Africa</hi>, considero eu, para além do mais, insuportável para mim: é esse o "grande sacrificio" e<lb/> o único que de todo entendo ter o direito de lhe exigir. Tenho a certeza que o compreende, conto com ela e acentuo que absolutamente nada<lb/> poderá justificar uma solução unilateral e pela força (a força que só vem de eu estar preso...). <hi rend="underlined">Em Lisboa</hi>, conhece dificuldades e possibilidades. Uma<lb/> vez que decida seguramente ficar em Lisboa, julgo que não será muito difícil ajudá-la, congregar os esforços de todos, etc, etc. Não perca pres-<lb n="false"/>pectivas porque muitas tempestades que parecem autênticas são em copos de água. E os problemas acabarão por resolver-se.<lb/><lb/> B - <hi rend="underlined">EMPREGO</hi>? Parece indiscutível que não quere "lavar os tachos": defina-se firmemente! É uma <supplied resp="MG" reason="illegible">editorial</supplied>? É publici-<lb n="false"/>dade? O que é exactamente? Tem que ter em conta <hi rend="underlined">reais</hi> possibilidades e seria desastroso que as pessoas começassem a admitir que faz<lb/> exigências excessivas, que afinal não tem muita vontade de resolver o problema, etc. Julgo que o justo é agarrar uma possibilidade aceitá-<lb n="false"/>vel, ir ganhando experiência, mudar depois - se surgir oportunidade vantajosa - para outro melhor, etc. - O desemprego nem mesmo<lb/> psicologicamente a ajuda. Não me parece, nesta base, difícil resolver a situação se for abordada e trabalhada sistematicamente. É<lb/> preciso que me ajude a ver claramente o que quere, que dificuldades se lhe levantam, que hesitações têm, etc, etc. Assim é-me difícil ir<lb/> <supplied resp="MG" reason="damage">mais</supplied> longe.<lb/><lb/> C - <hi rend="underlined">FILHAS</hi>? Quere ou não ter ambas consigo? Poderá ou não tê-las, dadas as reais forças e possibilidades? Que<lb/> ajuda real <add hand="CDD2010" place="supralinear">que</add> pode dar a Mãe? O problema tem que ser visto olhando para o interesse das miúdas, para a sua educação, etc, etc. Eu gostaria<lb/> que se mantivesse com ambas. A <name/> <hi rend="underlined">precisa</hi> de ir para uma pré-primária; a <name/>, a curto prazo, também. É preciso também<lb/> aqui planificar as coisas e começar a dar passos numa direcção definitiva, sem desânimos.<lb/><lb/> Bato-me também para que se mantenham, e se possível estreitem, os laços com a minha família, Avós, Tios, Primos.<lb/> Como? Passando lá férias, semanas, fins de semana, etc. Não compreenderia que levantasse obstáculos a que as miudas, <gap reason="cancelled" extent="1 letter"/> <add hand="CDD2010" place="supralinear">as</add> duas ou<lb/> uma, passem temporadas no Porto, desde que daí não advenham traumatismos. É perfeitamente natural e normal. E só ajudará<lb/> as miudas a recomporem-se de "velhos traumatismos" o conseguirmos que se habituem a estar sem o pai ou a mãe; o que é funda-<lb n="false"/><pb n="[2]r"/>mental é que deixem de associar afastamento com perda, etc, etc.<lb/><lb/> Bato-me também para que se recomponham, estabilizem e normalizem as relações da <name/> com "a família do pai<lb/> das suas filhas". Foram questiúnculas que isoladamente nada valem, nada significam, etc e que não devem, <gap reason="damage" extent="1 word"/> <supplied resp="RM" reason="damage">impedir</supplied> a<lb/> continuidade de laços naturais.<lb/><lb/> D - <hi rend="underlined">CASA - CONVÍVIO</hi>? Também aqui não sei com o que conta. Que resulta da vinda da <gap reason="damage" extent="1 word"/>. Quanto tempo fica-<lb n="false"/>rá cá a Mãe? Não ficando cá a Mãe poderá continuar a habitar a casa? Enfim, o que há de facto? Se <gap reason="damage" extent="1 word"/> há, a situação<lb/> actual não poderá manter-se, porque cansará as pessoas. Será impossível encontrar uma solução conjunta com alguém, sua<lb/> amiga, etc evitando o "terrível" isolamento <note n="contraction">d</note> um quarto ou <note n="contraction">d</note> uma parte de casa alugada a alguém desconhecido? É natural, tam-<lb n="false"/>bém aqui, que não seja possível realizar logo, às primeiras, a solução optima. Mas será meio caminho andado saber-se<lb/> o que se procura, em que direcção e com que perspectiva avançar.<lb/><lb/> E - <hi rend="underlined">NOVAS RELAÇÕES</hi>? Determinar-se tendo em conta todos - mas todos - os ângulos e todas as suas forças.<lb/> Encontrar-se autentica, sincera - eis o que é preciso. É fácil? É difícil? Não importa, é o caminho. Não se mova senão<lb/> pelos seus próprios sentimentos, sem piedadezinhas, sem cedência a quaisquer pressões, com inteira franquesa e inteiro <hi rend="underlined">egoísmo</hi>.<lb/> Quando e como considerar possível, agora, daqui por 6 meses ou 2 anos... Qualquer que seja a "saida" que encontrar saiba<lb/> que não anula nem o meu apoio, nem o que lhe tenho afirmado, nem sobretudo a minha integral noção de res-<lb n="false"/>ponsabilidade pela sua vida actual. Fiz tudo quanto pude para lhe subtrair obstáculos, para lhe possibilitar a maior am-<lb n="false"/>plitude possível de opções e movimentos, etc, etc. Fiz disso um ponto básico e não é difícil verificar quanto me tem preo-<lb n="false"/>cupado e qual tem sido o meu esforço. É com perfeita noção das coisas que afirmo compreendê-la; bato-me <gap reason="damage" extent="1 word"/><lb/> o transe para que esta ou aquela definição de laços entre nós (inclusivé a total rotura) não invalide nem distorça as <supplied resp="MG" reason="damage">con-<lb n="false"/>clusões</supplied> a que chegarmos nos restantes aspectos. Quero tornar-lhe claro e límpido que não considero nem imoral, nem<lb/> negativo, nem patológico, etc, etc que entenda dever se compor ou recomeçar a sua vida sentimental, que considero perfei-<lb n="false"/>tamente normal, natural, humano e legitimo que o faça se o concluir assim. Que me dissocio inteiramente de qualquer<lb/> pressão <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> dos meus familiares em sentido contrário a este e que rejeito inteiramente todos os preconceitos<lb/> e "moralzinhas" que existam. E que, ainda, insisto e repito e torno a repetir que neste campo interessa muito pouco<lb/> que olhe para mim ou para os meus e que olhe sobretudo e acima de tudo para si, para os seus sentimentos<lb/> e para a sua vida. Se, <note n="contraction">d</note> um ponto de vista subjectivo, pode aparecer como fundamental - e é-o, de facto - este<lb/> aspecto, <note n="contraction">d</note> um ponto de vista prático justifica-se que seja colocado em último lugar.<lb/> Como em muitas outras coisas,<lb/> é preciso começar pela ponta do novelo, pelo que é <add hand="CDD2010" place="supralinear">de</add> mais resposta, e sobretudo, pelo que é básico, instante, urgente: tratar<lb/> das bases materiais da sua vida. Saliento ainda que as nossas relações, hoje ou amanhã, apenas a nós os dois dizem<lb/> respeito e que considero que qualquer definição que lhe dê hoje, pode mudá-la amanhã, se o entender. Isto não é<lb/> propriamente um negócio em que é preciso manter, a todo o custo, a palavra dada. O que é preciso manter é a<lb/> limpidez de propósitos, a lealdade e a austeridade.<lb/><lb/> 10. Sugiro que pegue num lapis e num papel e comece a definir-se, com optimismo, com coragem, par-<lb n="false"/>cela a parcela. Deite contas às andanças necessárias, pessoas com quem tem de falar, iniciativas a tomar, etc, etc. Verá que começam<lb/> a surgir-lhe perspectivas de solução, coisas que antes não vira, possibilidades novas, etc. Depois é mesmo tratar das coisas, dar<lb/> mesmo os passos, andar e andar, cansar-se e cansar-se. Não se deixe vencer pelos muitos e muitos insucessos que, com certeza,<lb/> sofrerá: reaja, reganhe força, recomece. A propósito de algumas coisas, costumava eu dizer-lhe, meio a sério meio a<lb/> brincar, que é precisamente quando os problemas parecem insolúveis, quando parece não haver volta a dar-lhes que a solução<lb/> surge. Que se trate, que se alimente bem, que se defina acertadamente, que não se poupe o esforço e que nunca<lb/> perca a confiança em si própria - e o resto resolver-se-a, por acréscimo, <note n="contraction">d</note> uma forma ou <note n="contraction">d</note> outra.<lb/><lb/> E ainda, importantissimo: que me responda e fale comigo por teu intermedio. Estou, aliás, con-<lb n="false"/>vencido de que também a <name/> sente profundamente a necessidade de conversarmos, de me ouvir também, até porque será<pb n="[2]v"/> sempre muito dificil, hoje ou amanhã, estar <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> tão à vontade com alguém como comigo. Certo? Então que não<lb/> "engrole" o que tem a<del hand="CDD2010">o</del> dizer, que não cale situações, dificuldades, opiniões, etc, etc.<lb/><lb/> Tudo isto estava escrito antes da visita de ontem, <abbr>2a</abbr> feira. Mantenho-o inteiramente. Quero exprimir-lhes<lb/> directamente a minha opinião, dada à <name/> e ao <name/>, sobre os problemas sobrevindos:<lb/><lb/> 1. Cabe à <name/> decidir todos os problemas respeitantes às miudas, inclusivé irem para o Porto ou ficarem<lb/> cá. A sua separação das miudas só pode justificar-se num período curto (2 a 3 semanas), com um objectivo bem<lb/> definido (tratar-se, organizar as coisas), mas dependerá sempre e em última instância da sua vontade. Ficará sempre à<lb/> sua decisão o regressarem para o seu lado. A <name/> garantiu-me ser <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> vontade expressa <add hand="CDD2010" place="supralinear">da <name/></add> que as miudas fossem uns tempos<lb/> para o Porto: só nessa base o aceitei. E faço questão - e não sossego - de que a <name/> me confirme expressamente isto.<lb/><lb/> 2. A ida das miudas para o Porto resolve-lhe problemas materiais (de tempo, dinheiro, alojamento, etc) e alguns<lb/> psicológicos (preocupações com elas), mas criar-lhe-á simultâneamente diversos problemas emotivos e psicológicos, para <del hand="CDD2010">rel</del> si e<lb/> para as miudas, cujas consequências me são imprevisiveis e muito e muito me preocupam. Afirmei-o claramente à <name/> e<lb/> faço questão que me afirme expressamente que lhe transmitiram esta opinião.<lb/><lb/> Defendo taxativamente que as miudas devem viver com a Mãe, fundamentalmente dependentes dela, etc, etc,<lb/> mesmo que sejam mal lavadas, andem mal vestidas ou comam pior.<lb/><lb/> 3. Preocupa-me muito não saber as condições materiais, psicológicas, etc em que fica. Penso que não se<lb/> deve sentir nem isolada nem desajudada e nesse sentido vou escrever para <supplied resp="LT" reason="illegible">isso</supplied>. Aliás sobre todas estas questões vou escrever<lb/> à tua Mãe tornando inteiramente explícito a "tragédia" que seria para todos lá, <supplied resp="LT" reason="illegible">cozinhar-se</supplied> qualquer coisa à margem da<lb/> <name/>.<lb/><lb/> 4. Não terá sentido inibir-se de aceitar a ajuda material e moral de minha família (minha, afinal),<lb/> inclusivé de regressar ao Porto. Simplesmente penso que não deve, de maneira nenhuma, voltar para lá nas anteriores<lb/> condições. Explico-me: por todas as razões, entendo obrigatório que não fique a tratar das coisas de casa, que se empregue,<lb/> que crie centros de interesse variados e amplo convívio. Defendo ainda que, no caso de voltar, mesmo tendo trabalho,<lb/> é importantíssimo procurar viver em habitação própria (mesmo que seja um quarto alugado), vivendo com as filhas (mesmo<lb/> que durmam no chão). Defendo ainda mais, que é preferível viver em Lisboa.<lb/><lb/> <seg type="formulaicText" n="peroration">É tudo.</seg><lb/><lb/> Peço-te, <name/>, que lhe dês a ler esta carta. Repito - e lê-a tu tambem.<lb/><lb/> Abraça-a.</p>
            <closer><salute>Um abraço muito amigo do tio</salute> <signed><name/></signed></closer>
            <ps><p>P.S. A <name/> perguntou-me se não temia uma possivel ida da <name/> com as miudas para Africa. Temo e preocupa-me<lb/> muito. Corro conscientemente o risco, até porque não há outra saida senão corrê-lo. Mas eu é que, directamente ou não,<lb/> não lhe subtraio as filhas. Que se trate, mas das doenças reais. Ao <name/> vale a pena ir, mas a mais ninguem. Insisto terminan-<lb n="false"/>temente que se recuse a embarcar nessas mistelas psicanaliticas meninas-bem. O essencial é ganhar forças, trabalhar, organizar<lb/> a vida, criar centros de interesse multiformes e amplos, conviver, sentir, viver. E, neste sentido, é <supplied resp="MG" reason="damage">positivo que tenha</supplied> vindo para Lisboa.<lb/> As filhas são nossas. E se tem que viver num bairro de lata, pois que vivam. Tem todas as condições fundamentais para tratar delas e<lb/> não se deixe convencer do contrário.<lb/> <name/>
            </p></ps>
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