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            <titleStmt><!-- escolha aleatória --><!-- 4 imagens -->
                <title>1918. Carta familiar de um militar do C.E.P. para a sua mulher. De França para Vila Flor (concelho). FLY2098</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                    <resp n="contextualization"><name id="SC">Sílvia Correia</name>
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                <respStmt><resp n="revision"><name>Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <name id="TS">Tiago Sá</name>,
                    <name id="JPF">José Pedro Ferreira</name>,
                    <name id="AK">Ângela Kajita</name>
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                    <resp n="webDesignAndProgramming"><name id="RPC">Rui Pedro Chaves</name>, 
                        <name id="JS">João Salavisa</name>,
                        <name id="FMG">Francisco Miguel Guilherme</name></resp>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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            </titleStmt>
            <publicationStmt>
                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
                <address>
                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
                </address>
                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2011">2011</date>
                <availability status="restricted">
                    <p>Copyright 2011, CLUL</p>
                </availability>
            </publicationStmt><sourceDesc>
                <letDesc>
                    <letIdentifier>
                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution type="nationInstitute">Arquivo Histórico Militar</institution>
                        <repository reg="CEP">Corpo Expedicionário Português</repository>
                        <collection>I Divisão</collection>
                        <idno>35ª Secção, Caixa 86, Fólios [1]r-[2]v</idno>
                        <note>
                            <list type="CEPidno">
                                <item n="series">Secção 35</item>
                                <item n="box">Caixa 86</item>
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                        </note>
                    </letIdentifier>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2180" id="CDD2180">CDD2180</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2181">CDD2181</addressee>
                        <placeLet attested="yes">França</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1918.08.13
                            <date value="1918"/>
                        </dateLet>
                    </letHeading>
                    <physDesc>
                        <type>carta</type>
                        <support>
                            <p>meia folha de papel quadriculado dobrado e escrito em todas as faces.</p>
                        </support>
                        <extent>
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                        <layout>
                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
                        </layout>                        
                        <condition>
                            <p>o envelope tem um carimbo que contém: OUVERT, 369, Par l' Autorité Militaire.</p>
                        </condition>
                    </physDesc>
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                        <class n="type">notícias</class>
                        <class n="linguisticSource">líquidas</class>
                        <class n="socioHistoricalSource">Primeira Guerra Mundial, serviço militar, guerra, licença, família</class>
                        <class n="sociologySource">comunicação, serviço militar, educação</class>
                        <p>O autor escreve à mulher dizendo que as licenças dadas na guerra são só para alguns privilegiados e envia 
                            cumprimentos para toda a família. Desculpa-se de ainda não ter dado notícias a alguns familiares por ter aprendido 
                            a escrever há pouco tempo.</p>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do Arquivo Histórico Militar.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
                        <surrogates>
                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2098_1.JPG"/></bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2098_2.JPG"/></bibl>
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                                <bibl><xref n="FLY2098_4.JPG"/></bibl>
                            </p>
                        </surrogates>
                        <note n="context">
                            <p>Decorrida entre 28 de julho de 1914 e 11 de novembro de 1918, a I Guerra Mundial resultou na derrota das 
                                Potências Centrais (lideradas pelo Império Alemão, o Império Austro-húngaro e o Império Otomano) pela 
                                Tríplice Entente (liderada pelo Império Britânico, pela França e pelo Império Russo até 1917, e pelos 
                                Estados Unidos, a partir dessa data). Irrompendo do assassinato do arquiduque Austro-húngaro, Francisco Ferdinando, 
                                a 28 de junho de 1914, o universo conjugado de razões que estão na sua origem é bem mais vasto, podendo ir do 
                                imperialismo económico ao exponencial nacionalismo. O conflito, que se pensou breve, transformou-se num longo e 
                                penoso confronto de trincheiras. Este resultou em mais de dezanove milhões de mortos, mobilizando, numa guerra 
                                total, todas as sociedades dos países envolvidos e abalando, definitivamente, a velha ordem na base das sociedades 
                                liberais.</p>
                            <p>Portugal integrou as nações aliadas vencedoras. Porém, afastada a possibilidade de uma ameaça territorial, a 
                                defesa das colónias não se revelou capaz de justificar uma diligência em território Europeu, nem mesmo por razões 
                                diplomáticas, antevendo-se motivações de ordem política no desejo intervencionista do Partido Democrático. 
                                Apesar das pressões da Inglaterra em sentido contrário, Portugal declararia guerra à Alemanha em março de 1916. 
                                Foram mobilizados cerca de cem mil homens, primeiro para África (1914) e depois para a frente europeia (1917), 
                                dos quais resultariam mais de sete mil mortos e cerca de treze mil feridos. Somente na Batalha de La Lys (9 de abril de 1918), 
                                perdeu-se 25% do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.). A ausência de confrontos em território nacional e as profundas 
                                divergências geradas no país relativamente à sua participação no conflito em território europeu determinaram a 
                                inexistência de uma mobilização nacional no esforço de guerra e de um espírito comum na edificação de uma memória 
                                nacional em torno do grande esforço da Pátria.</p>
                            <p>Daquilo que compõe o todo da experiência de guerra, a morte é o fenómeno cujo impacto é mais profundo. O quotidiano 
                                de guerra colocou os soldados face à persistente e dolorosa ameaça de vida, que insiste em vir ao de cima nos períodos 
                                de espera entre os confrontos, um tempo passado entre cadáveres que se procuram enterrar condignamente. Segundo 
                                dados do Serviço de Estatística do C.E.P. de 1924, dos 55 085 efetivos mobilizados para a frente europeia, morreram 
                                cerca de 1 992, 3,6% de baixas, a maioria em combate. Mas não é apenas na questão do 
                                contingente ou força de combate que a morte é central, também no impacto psicológico. As condições físicas da guerra de trincheiras, onde homens 
                                eram reduzidos e enfraquecidos pela ausência de um roulement regular, pela desigualdade de licenciamento e pela falta 
                                do apoio moral e material de uma nação, criaram um universo de insustentabilidade e descrença em relação às razões da 
                                guerra e mais ainda em relação à pátria que defendiam.</p>
                        </note>
                    </additional>
                </letDesc>
            </sourceDesc></fileDesc>
        <encodingDesc><projectDesc>
            <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, 
                migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p> 
        </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra e suprimindo-se os sinais de mudança de
                    linha para facilitar operações de busca automática. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis 
                    foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, 
                    e as formas acrescentadas nos mesmos originais transcreveram-se na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, 
                    as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar pela letra [L] e as de outros
                    dados pela letra [D]. Finalmente, as cartas acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
        <revisionDesc>
            <change>
                <date>janeiro de 2011</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Mariana Gomes</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
            </change>
            <change>
                <date>dezembro de 2011</date>
                <respStmt>
                    <resp><name>Rita Marquilhas</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Revisão da leitura</item>
            </change>
        </revisionDesc>
    </teiHeader>
    <text id="FLY2098">
        <envelope type="146x114">
            <envPart side="front">
                <address type="receiver">
                    <addrLine><abbr>Illma</abbr> <abbr>Snra</abbr></addrLine>
                    <addrLine>[N]</addrLine>
                    <addrLine>Correio de Vila-flôr</addrLine>
                    <addrLine>para [L]</addrLine>
                    <addrLine>Tras-os-Montes.</addrLine>
                </address>
            </envPart>
        </envelope>
        <body>
            <pb n="[1]r"/>
            <opener>
                <address><addrLine>Em Campanha</addrLine></address>
                <dateline>13- de Agosto de 1918</dateline>
                <salute>Minha querida mulher</salute></opener>
            <p><seg type="fomrulaicText" n="harengue">em primeiro que<lb/> eu mais estimo que esta minha mal<lb/> nutada carta te va emcomtrar 
                de<lb/> uma porfeita e felis saude em companhia<lb/> dos nossos queridos meninos e em<lb/> a companhia de tôda a nossa familia 
                que<lb/> eu ao fazer desta fico sem nuvidade<lb/> alguma felismente.</seg> mulher eu hoje<lb/> mesmo <del hand="CDD2180">c</del>
                estou rezulvido  a mandarte<lb/> dezer por que é a rasão que eu nâo<lb/> tenho ido de lisença porque nesta<lb/> vida sõ quem tem pais è 
                que<lb/> vai. porque nesta vida sô a muita<lb/> malandrage. mulher mandute dezer<lb/> esto porque vâu 3 rapazes daqui<lb/> de 
                lisença esta carta ê mitida em<lb/> Portugal e depois ai asde resever.<lb/> mulher eu te mando dezer aonde<lb/> è que eu tenho estado
                <supplied resp="MG" reason="illegible">olha</supplied> estive<lb/> 8 meses en uma vila chamada <unclear>Breste</unclear><lb/> e agora estou numa 
                chamada<lb/> Montevilieres esto tu quando me<pb n="[1]v"/> escriveres nâo me mandes dezer os<lb/> nomes das terras
                porque ê muito<lb/> <unclear>perivido</unclear> e eu mandei-te pedir 20 mil<lb/> reis mas não <unclear>mes</unclear> mandes ate<lb/> segunda
                resposta mulher eu aqui<lb/> tenho paçado de tudo bem e mal<lb/> agora esta vida é muiticimo tris<lb/>te porque aqui a jente lida com<lb/> 
                bechos que os nossos são piores<lb/> que esta vida sô é bôa para quem<lb/> ê malandro. jente que não tem<lb/> ningem mas eu
                tinha muito<lb/> gosto em abraçace a minha familia<lb/> mas atê que as licenças vam<lb/> por terra não se pagara nada<lb/> que agora ja ê
                preciço 300 <del hand="CDD2180">fancus</del><lb/> francus hora tu bem podes saber<lb/> que eu que só ganho - <supplied resp="MG" reason="illegible">10</supplied>
                santavos<lb/> por dia. <supplied resp="MG" reason="illegible">mas</supplied> isso não era a duvida<lb/> que enfelismente tinha<lb/> quem
                mos enpestase mas o<lb/> que ê ê não me deixarem ir.<lb/> porque teumos cá um hoficial<pb n="[2]r"/> que só manda quem 
                el quer<lb/> mulher mas não te afelijas que<lb/> ainda um dia <unclear>mus</unclear> eumos a<lb/>juntar se Deus quezer. 
                <seg type="formulaicText" n="peroration">bem<lb/> agora da muitas
                    saudades ao<lb/> Compdre de a Comadre e a [N]<lb/> e a [N] e a minha mãe e ao<lb/> meu irmão e a tua
                    irmã e a tua<lb/> tia [N] e se para casso <gap reason="cancelled" extent="1 letter"/><lb/> vires o teu tiu da [L]
                    dalhe<lb/> saudades minha e que me<lb/> desculpe eu não lhe ter<lb/> escrte porque não savea<lb/> escrever tinha que andar<lb/> semper a pedir. 
                    muitas<lb/> saudades as meninas da Sinho<lb/>ra [N] e a tôda a familia<lb/> dela e a minha tia [N]<lb/> e a tia [N] e a toda<lb/> familia e quem per mem<lb/> preguntar
                    desculpa em esta<lb/> carta ir mal escrita porque<lb/> vai muito a presa bem<pb n="[2]v"/> com esto não te maço mais<lb/> da muitos
                    bejos aos meninos<lb/> e tu reseve um apretado<lb/> abraço deste teu homem que<lb/> muito te ama para sempre<lb/> com esto termino
                    esta minha<lb/> carta sou este que me asino</seg> 
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