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            <titleStmt><!-- escolha aleatória -->
                <title>1918. Carta de amor entre marido e mulher. De França para Arcozelo. FLY2214</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="MG">Mariana Gomes</name></resp>
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                    <resp n="contextualization"><name id="SC">Sílvia Correia</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2012">2012</date>
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                    <p>Copyright 2012, CLUL</p>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution type="nationInstitute">Arquivo Histórico Militar</institution>
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                        <collection>I Divisão</collection>
                        <idno>35ª Secção, Caixa 86, Fólios [1]r-[2]v</idno>
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                        <placeLet attested="yes">França</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1918.05.14
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                        </dateLet>
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                        <type>carta</type>
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                            <p>uma folha de papel de carta pautada de 22 linhas dobrada escrita em todas as faces; carimbo do Arquivo Histórico Militar..</p>
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                            <p>sem linhas em branco a separar a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
                            <p>.</p>
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                        <class n="type">queixa</class>
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                        <class n="socioHistoricalSource">I Guerra Mundial</class>
                        <class n="sociologySource">comunicação, serviço militar, conflito armado</class>
                        <p>O autor mostra preocupação por não receber cartas da sua mulher e por depreender que ela não lhe quer escrever. Encontra-se desesperançado em relação à sua situação, por se terem cumprido 16 meses desde a sua ida para França e pelo facto de a sua companhia ainda não ter sido rendida.</p>
                    </letContents>
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                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do Arquivo Histórico Militar.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
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                            <p>
                                <bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2214_1.JPG"/></bibl>
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                        <note n="context"><p>I Guerra Mundial</p></note>
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                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
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            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
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                <date>junho de 2012</date>
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                    <resp n="tagging">
                        <name>Mariana Gomes</name></resp>
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                <item>Codificação DALF</item>
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                    <addrLine><add hand="CDD2464" place="margin-right"><hi rend="underlined">Portugal</hi></add></addrLine>
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                    <addrLine>Correio de Gouveia para</addrLine>
                    <addrLine><hi rend="underlined">Arcozêllo</hi></addrLine>
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                <postmark><placeName>N.A.</placeName> <note type="otherText">C.E.P.</note> <note type="date">15 V 18</note> <note type="otherText">S.P.C.4</note></postmark>
                <postmark><placeName>N.A.</placeName> <note>Censurado No. 9</note></postmark>
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                <date>14-5-918</date>
                <salute>Minha querida mulher</salute>
            </opener>
            <p><seg type="formulaicText" n="harangue">em primeiro<lb/> de tudo estimo a tua saude em com-<lb n="false"/>panhia de nosso filho, e quem mais<lb/> desejares, pois eu ao fazer desta fico<lb/> bom graças a Deus.</seg><lb/><lb/> Querida mulher, estou um pouco<lb/> inquieto com o teu silencio pois ja<lb/> á bastante tempo que não tenho<lb/> recebido correspondencia tua, alem<lb/> disso eu tenho uma fraca (lembran-<lb n="false"/>ça) ideia que tu tambem ahi não<lb/> teres recebido letra minha, mas eu<lb/> daqui não tenho culpa pois eu ten-<lb n="false"/>ho escripto, mas segundo se aqui diz<lb/> é facto de tu não teres recebido porque<lb/> ao que se por cá sabe não tem<lb/> ido daqui correspondencia só d'a<lb n="false"/>hi para aqui é que tem seguido,<lb/> por isso não sei porque me não tens<lb/> escripto naturalmente estava á<pb n="[1]v"/> espera que recebesses carta minha<lb/> para me escreveres, pois se as não tens<lb/> escripto é porque não queres, e se não<lb/> tens recebido as minhas a culpa<lb/> não é minha porque eu tenho es-<lb n="false"/>cripto. eu cá vou indo na<del hand="CDD2464">o</del> forma<lb/> do custume sempre à espera de<lb/> qualquer ordem para a ver se nos<lb/> mandavam para Portugal mas<lb/> estou vendo que tudo isto é uma<lb/> fantasia, porque quem cá esta<lb/> está quem cá fica fica, a sorte<lb/> é para quem esta em Portugal pois<lb/> nos os que estamos em França escu-<lb n="false"/>samos talvés de fazer conta de<lb/> voltar para ahi, pois ja vai para<lb/> 16 meses que cá estamos e não se<lb/> vê esperanças de nada, mas sim<lb/> qualquer esperança de perdermos<lb/> a vida, esses que por ahi estão<lb/> podem se chamar felizes com a<lb/> sorte que tiveram alem disso estão<pb n="[2]r"/> em socego, pois os cá estamos duran-<lb n="false"/>te o tempo que dahi vim ate hoje<lb/> ainda não tive um momento de<lb/> socego, que pena é esta, uma mãe<lb/> que cria um filho para depois<lb/> de criado vir para este fim vale<lb/> mais cortar-lhe logo o pescoço, do-<lb/> que andar a sofrer tantos mar-<lb n="false"/>tirios como tenho sofrido, e que<lb/> estarei para sofrer, eu só gostava<lb/> de cá vêr esses homens que ahi<lb/> davam vivas á guerra, para sa-<lb n="false"/>berem o que élla é. Saberáz que o<lb/> <name/> foi dado imca-<lb n="false"/>páz qualquer dia para ahi re-<lb n="false"/>gressará e elle poderá então contar qual-<lb n="false"/>quer coisa isto é se elle la chegar<lb/> vivo porque a saude delle é pou-<lb n="false"/>ca nem talvez passará o mar<lb/> Nós cá ficamos <quote n="idiom">tristes como a noite<lb/> escura</quote> ate que venha a morte<lb/> e que nos leve para a eternidade<pb n="[1]v"/> que é o que temos mais certo pois<lb/> do resto de ir para a tua compan-<lb n="false"/>hia poderás perder as experanças<lb/> assim como eu, que não vejo gei-<lb n="false"/>tos nenhuns nem modos, isto é<lb/> não sei o que po<del hand="CDD2464">o</del>r ahi andarão<lb/> a fazer ou o que por a<del hand="CDD2464">q</del>hi dirão<lb/> por aqui é tudo na mesma<lb/> cá foi dito que eramos rendidos por<lb/> uma divisão que vinha dahi pois<lb/> isto é tudo uma fantasia para a-<lb n="false"/>ruinar mais o pessoal. <seg type="formulaicText" n="peroration">Com isto<lb/> não te emfado mais. Recomendações<lb/> ao <name/> a mulher ao tio <name/><lb n="false"/><name/> e a familia não esque-<lb n="false"/>cendo o <name/>. Recomenda-me ao<lb/> Dom <name/> e a mulher e aos pequenos<lb/> Recomenda-me muito ao tio <name/><lb/> e mil saudades a <name/><lb/> mil beijos ao nosso menino, e tu de<lb/> mim recebe mil abraços cheios de saudades</seg></p>
            <closer>
                <salute>deste teu querido homem.</salute>
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