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                <title>1970. Carta familiar entre marido e mulher. De Peniche para [Lisboa]. FLY2600</title>
                <sponsor>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</sponsor>
                <funder>FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia PTDC/CLE-LIN/098393/2008</funder>
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                    <resp n="project"><name id="FLY">FLY, Cartas Esquecidas: Anos 1900 a 1974 (Forgotten Letters: Years 1900-1974)</name></resp>
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                    <resp n="coordination"><name id="RM">Rita Marquilhas</name></resp>
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                    <resp n="transcription"><name id="CA">Cristina Albino</name></resp>
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                    <resp n="supervision"><name id="RVDB">Ron Van den Branden</name></resp>
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                <publisher>CLUL, Centro de Linguística da Universidade de Lisboa</publisher>
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                    <addrLine>Av. Professor Gama Pinto, 2</addrLine>
                    <addrLine>1649-003 Lisboa-Portugal</addrLine>
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                <pubPlace>Lisboa</pubPlace>
                <date value="2010">2010</date>
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                    <p>Copyright 2010, CLUL</p>
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                        <country>Portugal</country>
                        <settlement>Lisboa</settlement>
                        <institution>N.A</institution>
                        <repository reg="none">Arquivo Privado</repository>
                        <collection>Arquivo Privado</collection>
                        <idno>FLY2600, Fólios [1]r-v</idno>
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                        <author attested="yes" key="CDD.xml#CDD2010" id="CDD2010">CDD2010</author>
                        <addressee attested="yes" key="CDD.xml#CDD2011" id="CDD2011">CDD2011</addressee>
                        <placeLet attested="yes">Peniche</placeLet>
                        <dateLet attested="yes">1970.05.04
                            <date value="1970"/>
                        </dateLet>
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                        <type>carta</type>
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                            <p>uma folha de papel de carta pautado de 30 linhas escrita em ambas as faces; carimbo da censura da Cadeia do Forte de Peniche.</p>
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                            <p>sem linhas em branco entre a fórmula de endereço e o início do texto.</p>
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                        <condition>
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                    <envOcc occ="no"/>
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                        <class n="type">crítica</class>
                        <class n="linguisticSource"></class>
                        <class n="socioHistoricalSource"></class>
                        <class n="sociologySource">saúde, família</class>
                        <p>O autor critica a destinatária por ela ter recuado numa decisão comum relativa à educação de uma das filhas. Tenta influenciá-la no sentido de deixar que essa filha mude de cidade e vá para junto da família paterna. Relembra o passado recente e tenta argumentar em função dele. Termina com pedidos concretos: marcação de consulta de dentista para uma filha e envio de fotografias e slides.</p>
                        <note n="relatedLetters"><p>FLY0002</p>, <p>FLY0008</p>, <p>FLY0010</p>, <p>FLY0011</p>, <p>FLY1039</p>, <p>FLY1040</p>, <p>FLY1041</p>, <p>FLY1042</p>, <p>FLY1067</p>, <p>FLY1116</p>, <p>FLY2024</p>, <p>FLY2025</p>, <p>FLY2026</p>, <p>FLY2027</p>, <p>FLY2069</p>, <p>FLY2071</p>, <p>FLY2074</p>, <p>FLY2076</p>, <p>FLY2077</p>, <p>FLY2078</p>, <p>FLY2438</p></note>
                    </letContents>
                    <additional>
                        <adminInfo>
                            <availability>
                                <p>Reproduções não dispensam licença do proprietário da Coleccção.</p>
                            </availability>
                        </adminInfo>
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                            <p><bibl>facsimile digital guardado como ficheiro JPEG</bibl>
                                <bibl><xref n="FLY2600_1.JPG"/></bibl>
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                        <note n="context"><p>prisão</p></note>
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            <projectDesc>
                <p>Projeto FLY, Cartas Esquecidas: busca, edição e estudo de cartas privadas escritas entre 1900-1974 em contexto de guerra, migração, prisão e exílio. Coordenação: Rita Marquilhas</p>
            </projectDesc>
            <editorialDecl>
                <p>Transcrição quasi-paleográfica, normalizando-se apenas a fronteira de palavra. As conjeturas do editor surgem entre parênteses retos e as leituras difíceis foram assinaladas com contraste de cor. As formas emendadas nos originais manuscritos estão rasuradas com um traço sobreposto, enquanto as formas acrescentadas nos mesmos originais se transcreveram na entrelinha superior. Com o intuito de salvaguardar dados privados, as ocorrências de nomes de pessoa surgem substituídas pela letra [N], as de nome de lugar, pela letra [L] e as de outros dados, pela letra [D]. Finalmente, as cartas de acesso restrito têm reticências entre parênteses retos a assinalar texto suprimido.</p>
            </editorialDecl>
        </encodingDesc>
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            <langUsage>                 
                <language n="PT"/>             
            </langUsage>
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        <revisionDesc>
            <change>
                <date>julho de 2010</date>
                <respStmt>
                    <resp n="tagging">
                        <name>Cristina Albino</name></resp>
                </respStmt>
                <item>Codificação DALF</item>
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    <text id="FLY2600">
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            <pb n="[1]r"/>
            <opener><address><addrLine>Peniche,</addrLine></address>
              <date>4. Maio. 1970</date>
                <salute><name/>:</salute></opener>
            <p>Escrevo-te um tanto apressadamente. Até ao último momento - isto é, até agora mesmo - esperei por notícias tuas acerca das nossas filhas. Ainda<lb/> não sei se já mostraste (indo ou telefonando) a análise da <name/> ao <abbr>dr</abbr> <name/>, nem qual é, afinal, a conclusão segura a que se chegou. A mim disseram-me -<lb/> - sob reserva de opinião mais fundamentada e experiente - que seria possivelmente necessário repetir a análise. Que há? Como tem andado a <name/>? Está mais<lb/> gordinha? Tem mais apetite? (Recebeste tónicos? Pedi-os ao meu Pai). E a <name/> (sem tranças!?!) como está? A escola quando acaba?<lb/> Contava não ter que te dizer senão mais meia dúzia de coisas, quase sem importância, ao correr da pena. Recebi, no entanto, a visita da minha<lb/> Irmã e vejo-me forçado a pôr alguns pontos nos ii. Vejamos, sintéticamente:<lb/><lb/> 1. Escrevi-te no sábado, <add hand="CDD2010" place="supralinear">dia 24,</add> uma longa carta sobre a ida da <name/> para o Porto (deves ter recebido <abbr>2a</abbr> feira); conversamos aqui no domingo anterior, isto é,<lb/> dia 25 de Abril. Embora não fosse essa a tua opinião, acabaste por aceitar a ida da <name/>. Perguntei-te expressamente se podia escrever à <name/><lb/> e tu respondeste-me claramente que sim. Quero crer que te recordas. Em função disso, escrevi à minha Irmã, à <name/> e ao meu Pai, pondo <hi rend="underlined">este</hi> problema<lb/> (<name/>), <hi rend="underlined">no âmbito e com a reserva que entendi correctas</hi>. Sei que a <name/> te mostrou a minha carta.<lb/><lb/> 2. Soube agora que estiveste com a <name/> e a <name/> no domingo, salvo erro; informou-me de como decorrera a conversa. Quero já salientar-te<lb/> que <hi rend="underlined">eu</hi> considero os termos e o conteúdo dessa conversa descabidos, sem interesse, ultrapassados, senão mesmo contra-producentes. A questão não é de "bons" conselhos<lb/> (vélhos e revélhos) ou coisa parecida: é uma situação <hi rend="underlined">de facto</hi> que urge resolver <hi rend="underlined">de facto</hi>. Foi isto que exprimi a minha Irmã com o tacto necessário.<lb/><lb/> 3. Entretanto, surpreendeu-me a tua posição. Tanto quanto o posso ajuizar, reputo-a ambígua, informe, equívoca, sem firmeza, desnorteada e des-<lb n="false"/>norteante, etc. O problema <name/> é suficientemente delicado (doloroso, se quizeres) para que a discussão se arraste, se enrole, a moer e moer e moer... Afirmaste<lb/> considerar desnecessária a ida da <name/> para o Porto. É quereres fugir a encarar a realidade. A personalidade e o caracter da <name/> estão sendo distorcidos,<lb/> corroídos, reprimidos, traumatizados, complexados - e profundamente - pela actual situação e ambiente. Só um total alheamento, ou uma enorme insensi-<lb n="false"/>bilidade ou uma espantosa cegueira de egoismo, pode impedir que se vejam os milhentos (não é exagero!) pormenores reveladores, grandes e pequenos, de<lb/> enorme importância ou quase sem importância, mas constantes, permanentes, crescentes. Poupemo-nos excessivas concretizações.<lb/><lb/> 4- Afirmaste ainda que as opiniões da tua Mãe e da tua Irmã eram francamente contrárias àquela ida. Eu não conheço a tua Mãe nem a tua Irmã<lb/> senão pelo que ouvi (e pelo que ouço) dizer delas. <gap reason="cancelled" extent="1 word"/> <del hand="CDD2010">t</del>Tenho querido, pois, não me pronunciar; e desejaria continuar a fazê-lo por mais elementos que pos-<lb n="false"/>suisse ou possua sobre as suas vidas. De qualquer modo, dispenso-me agora de contrabater tais opiniões, muito embora te saiba altamente influen-<lb n="false"/>ciável... É que o problema compete-nos a nós resolvê-lo. Tens que reter isto <note n="contraction">d</note> uma vez por todas. Sem qualquer escapatória.<lb/><lb/> 5- Repito uma outra vez: a minha opinião, perfeitamente clara e definida, muito e muito meditada e há muito tempo, é esta: não existem as<lb/> condições mínimas para a <name/> se manter em Lisboa; a melhor solução, apesar de alguns inconvenientes imprevisíveis, é a ida da <name/> para casa da <name/>.<lb/> TU SABE-LO. Mas além disso, sempre nos garantimos, das formas mais diversas e <hi rend="underlined">solenes</hi>, que, em situações como esta, a decisão sobre a <name/> me<lb/> caberia a mim. Está provado que as células do cérebro humano são as únicas que nunca se renovam: tem tal facto, ao menos, a vantagem de não nos ser<lb/> possível esquecer enquanto vivermos.<pb n="[1]v"/> 6- Desde que estou preso - para não nos enfronharmos agora mais para trás - tenho-te apoiado, ajudado, encorajado, etc, quase incondicionalmente e tanto quanto<lb/> posso e consigo, a resolveres com independência e coerente contigo própria os problemas fundamentais que defrontas. A vinda para Lisboa, o tratamento médico, o encontrar<lb/> do primeiro emprego, a própria adaptação à nova situação, o regresso das nossas filhas, etc, etc. Muito ou pouco, bem ou mal, tu o julgarás; aliás, não me<lb/> vem daqui mérito nenhum para mim, nem te diminui mérito algum a ti. Acho necessário lembrar-to apenas. Também me tenho recusado sistematica-<lb n="false"/>mente a envolver - seja em que grau for, com este ou com aquele, muito ou pouco, nisto ou naquilo - em "análises" esgaravatadoras de passados<lb/> ou de personalidades ou de factos ou de defeitos ou de qualidades. Tenho mantido sempre uma reserva que (desculpa!) me orgulha. Quero, quero mui-<lb n="false"/>to, continuar  intransigentemente a fazer uma coisa e outra. Ajuda-me! Porque eu não sei se o saberei fazer, se tu jogares de facto com o que chamaste<lb/> <quote>«uma situação de vantagem, com circunstâncias a teu favor"</quote>.<lb/><lb/> 7- Releio isto e pergunto-me: para quê levarmos a discussão e as mútuas reacções por aqui fora? Para quê, para quê? Conversamos, dis-<lb n="false"/>cordamos, falamos, discutimos <hi rend="underlined">ambos</hi> e <hi rend="underlined">ambos</hi> (como é justo e lógico) chegamos a um entendimento, a uma plataforma, a um relativo acordo.<lb/> Imperfeito? Pois claro, que outro seria impossível! (Seria e é!) Teriamos com toda a certeza muito ambos ainda a dizer, hoje e amanhã e<lb/> depois. Vem meu Pai ou o <name/> e dizem: - mas a <name/> também deve ir para o Porto, estás a sacrificá-la! Virão tua Mãe ou tua Irmã e dirão qual-<lb n="false"/>quer outra coisa. Etc. E <gap reason="cancelled" extent="2 letters"/> de cada vez vamos nós dar-lhes ouvidos e reabrir a discussão e a ferida? Até onde? Até quando? Em que termos?<lb/> Em suma: eu entendo decididamente que não. É por isso que te escrevo isto tudo; para nos pouparmos nova conversa no domingo e outra<lb/> no outro e assim sucessivamente. Não pode ser. Nem tu (nem eu) temos saude para isso. No domingo (vindo tu cá) quero descansadamente<lb/> ver as nossas filhas, conversar com elas, encher-me da alegria de as ver, de conviver um pouco de nada com elas, como não tenho feito.<lb/> Agora o que importa não é discutir mais. É que tu própria ajudes, facilites a que a <name/> vá para o Porto tal como discutimos, tal como<lb/> já acordamos, tal como sempre nos garantimos, tal como a situação o exige - e tu sabe-lo. Eu, por mim, bem tens visto <del hand="CDD2010">,</del> quanto tenho<lb/> respeitado, facilitado e ajudado a concretizar outros acordos, também relativos, também imperfeitos, mas a que já chegamos: pronto!<lb/><lb/> Sobre isto é tudo.<lb/><lb/> Não tragas mais livros porque ainda <add hand="CDD2010" place="supralinear">não</add> despachei estes. Eu depois digo-te qualquer coisa. Não te esqueças também<lb/> do que tão claramente te disse sobre as coisas que deves ou não deves trazer-me.<lb/> Queria-te pedir se conseguires lembrar-te donde estarão as fotos e os slides que nós tinhamos; sobretudo as<lb/> fotos que chegamos a colar num album. A minha Mãe não as encontra. Tê-las-ás tu? Estarão na <name/>? Vê se te lembras.<lb/><lb/> A tua saude? Achei-te magra e abatida. O exame de estenografia correu-te bem? Eu julguei<lb/> que era na sexta feira passada, mas afinal deve ter sido adiado para <abbr>2a</abbr> feira: que escola esquisita!<lb/><lb/> Eu cá estou, razoávelmente saudável, razoável bem disposto, já com saudades desses<lb/> pirralhos que são nossos. <seg type="formulaicText" n="peroration">Diz-lhes que as amo muito, que as beijo muito, que as mimo muito,<lb/> que lhes quero muito. Eu escrevo-lhes uns postalecos.<lb/><lb/> Beijo-te</seg></p>
            <closer><signed><name/></signed></closer>
            <ps><p>PS - Como já sabes, impõe-se que os dentes da <name/> sejam urgentemente chumbados, etc. Como sabes<lb/> parece que a besta da criada da tal colega da <name/> a humilhou fortemente. Vê se te apercebes<lb/> destas coisas e nestes dois meses apoias e dás força e carinho à miúda.<lb/> <name/></p></ps>
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